Foz do Iguaçu é uma cidade sui generis, seja pelo encantamento que oferece a turistas do mundo todo com as Cataratas do Iguaçu, a Itaipu Binacional, o Marco das Três Fronteiras ou, ainda, com a natureza exuberante da “Cidade das Águas”. A localização geográfica privilegiada de Foz do Iguaçu, contando com duas fronteiras no coração da América do Sul, também ajuda a atrair turistas que buscam a facilidade de compras a preços mais baixos, no Paraguai e na Argentina. Há muitas outras cidades no mundo que contam com atrativos naturais ou de compras, mas, com todos eles ao mesmo tempo, como ocorre em Foz do Iguaçu, não há outra no mundo.
É impressionante que, dentro desta mesma cidade, haja duas cidades totalmente distintas: a cidade turística, que encanta pela tranquilidade, beleza e organização, e outra totalmente oposta, onde impera uma mistura entrópica, a desorganização alucinante da Ponte da Amizade e de seus arredores, nas barrancas do rio Paraná. Esta cidade louca e desorganizada configurou-se, ao longo das décadas de 1970, 1980 e 1990, como rota do contrabando, do descaminho e do tráfico de drogas e armas, atraindo compristas e aventureiros do Brasil inteiro — e trazendo a reboque a proliferação de condutas delituosas e do crime organizado.
Em paralelo ao início e à construção da Itaipu Binacional, muitas pessoas vieram para Foz do Iguaçu em busca das oportunidades de uma fronteira praticamente intocada. Era comum os pioneiros contarem histórias de uma cidade que “era só mato”. As coisas foram acontecendo e as pessoas foram chegando; ao final dos anos 1990, Foz do Iguaçu já era extremamente famosa no Brasil como o “paraíso da muamba”, destino preferencial dos chamados “executivos da fronteira”. Nesse período, ao final da década de 1990, Foz do Iguaçu era uma cidade muito violenta, com épocas do ano em que ocorriam entre cinco e dez assassinatos por fim de semana. Eram comuns chacinas e acertos de contas. O auge da taxa de mortalidade ocorreu em 2006, com aproximadamente 300 assassinatos no ano¹, isso sem contar as ocorrências clandestinas que não eram contabilizadas pela polícia. A situação, no final dos anos 1990 e no início da década de 2000, era tão crítica que a equipe do presidente da República à época chegou a aventar a ideia de construir um muro nas margens do rio Paraná para tentar frear a criminalidade. Poderia até funcionar de certo modo, mas seria a coroação do sectarismo, daquilo que é exatamente o oposto da integração latino-americana.
Em termos de perspectiva de futuro para os jovens iguaçuenses, o final dos anos 1990 também não era promissor. Havia poucas possibilidades: ou se trabalhava no Paraguai como vendedor ou mesmo como “laranja” dos “executivos da fronteira”, ou, com sorte, conseguia-se algum emprego com carteira assinada em um hotel ou empresa do setor do turismo. Existia apenas uma universidade pública, a UNIOESTE, que oferecia poucas vagas. Esse cenário consolidou o êxodo de jovens de Foz do Iguaçu em busca de melhores oportunidades, o que foi o caso deste autor, que foi estudar em Santa Catarina, pois, à época, não havia em Foz o curso de engenharia que buscava. Essa falta de oportunidades não era nada mais, nada menos, do que consequência direta da ausência de cuidado e de investimentos por parte de Curitiba e de Brasília. A ideia que predominava era a de que Foz, uma cidade joia do turismo, conseguiria, em tese, gerar os próprios recursos. Ao mesmo tempo, o problema do contrabando, do descaminho e da criminalidade seria resolvido com polícia. Infelizmente, os investimentos em infraestrutura para o turismo nunca vinham, mas o policiamento sempre teve preponderância.
Esse tratamento, focado principalmente na repressão e deixando em segundo plano os investimentos em educação, saúde e infraestrutura, consolidou a impressão de que Foz era a “cloaca” do Paraná, sempre tratada como um problema distante dos grandes centros decisórios — e recebendo apenas os restos dos investimentos relevantes realizados no Paraná e no Brasil. A cidade passou a ser vista como um portal do contrabando do Paraguai, país associado à falsificação, à malversação e a símbolos de coisas ruins. A integração para a produção conjunta de riqueza, pensar a integração com inteligência, nunca foi prioridade em Curitiba, muito menos em Brasília.
A década da mudança
As coisas começaram a mudar em Foz do Iguaçu como consequência das transformações que o Governo Federal passou a implementar a partir de 2003. Foram iniciadas políticas de valorização e profissionalização da Polícia Federal, da Receita Federal, do Ministério Público Federal, da Polícia Rodoviária Federal e da Justiça Federal.
Para quem viveu em Foz do Iguaçu nos anos 1990, o termo “ser Federal” carregava significados bem conhecidos: eram frequentes os relatos de servidores federais que ostentavam um padrão de vida muito acima dos proventos da carreira, circulando em carros importados e cercados por seguranças armados. Esse quadro começou a se alterar a partir da Operação Sucuri², quando foram presos 22 policiais federais, três agentes da Receita Federal e dois agentes da PRF. Tratava-se de um marco importante no enfraquecimento do império do descaminho em Foz.
No mesmo ano de 2003 iniciava-se a empreitada da inovação com a criação do Parque Tecnológico de Itaipu, o icônico PTI, hoje Itaipu Parquetec. Tratava-se da concretização de um sonho acalentado por diversos professores e pesquisadores que, até então, atuavam de forma isolada, cada um em sua própria “raia” de inovação. Esse movimento ganhou força quando o professor Juan Carlos Sotuyo obteve o apoio do então DGB (Diretor-Geral Brasileiro) da Itaipu Binacional, o iguaçuense Jorge Samek. A trajetória da criação do PTI é narrada pelo professor Sotuyo em livro lançado em 2022, no qual descreve, em detalhes, como o diretor Samek e o Governo Federal incentivaram e financiaram a instalação do PTI em Foz do Iguaçu³.
Estavam lançadas as pedras fundamentais da mudança do perfil socioeconômico de Foz do Iguaçu: primeiro, combater a criminalidade e a visão simbólica da impunidade, por meio da profissionalização da Polícia Federal (PF), Receita Federal (RF), Polícia Rodoviária Federal (PRF), Ministério Público Federal (MPF) e da Justiça Federal; a segunda ação foi oferecer uma alternativa com empregos de alto nível e possibilidade de geração de riqueza e renda por meio da pesquisa, do desenvolvimento e da inovação. Ao final da década de 2010, duas importantes mudanças estruturais sacudiram a sociedade iguaçuense: 1) no decorrer da década de 2010, os servidores da PF, RF e PRF passaram a ser vistos como profissionais éticos e admirados pelo trabalho e pela dedicação no combate ao crime organizado; 2) os investimentos no PTI e a criação da UNILA, em 2010, mudaram a perspectiva do jovem iguaçuense; agora, era possível estudar em uma boa universidade e, depois, conseguir um bom emprego aqui mesmo em Foz.
UNILA: 15 anos de consolidação
Eu acompanhei, desde sempre, o desenvolvimento do PTI, período em que foram criadas diversas oportunidades de parcerias e de bons empregos. Foi, no entanto, em 2010, com a criação da UNILA, que passei a vislumbrar uma oportunidade concreta de retornar a Foz do Iguaçu e desenvolver sua carreira como pesquisador. Naquele momento, eu estava no início do doutorado na área de combustão, participando de projetos de pesquisa e desenvolvimento de gasolina de Fórmula 1 e de querosene de aviação renovável — hoje conhecido como SAF (Sustainable Aviation Fuel) — em parceria com a Petrobras. O PTI não possuía linhas de pesquisa na área de combustão, mas, em uma universidade com o porte e a missão da UNILA, isso seria possível. A partir disso, passei a planejar a minha trajetória profissional, identificando na UNILA os possíveis concursos para docente na minha área de formação. Esse processo revelou-se profundamente recompensador: a perspectiva de, após anos de estudo, retornar a Foz do Iguaçu e retribuir, por meio do conhecimento, tudo o que a cidade me havia proporcionado.
O exemplo é utilizado por estar claramente preservado na memória do autor, mas há muitas outras trajetórias e histórias de vida em que a UNILA teve papel preponderante no planejamento de carreiras e de projetos de vida como um todo. A Universidade Federal da Integração Latino-Americana mudou Foz do Iguaçu — e para melhor.
Após muitas idas e vindas, inclusive tentativas de extinção da UNILA e de sua incorporação a outra instituição⁴, em 2023 o Governo Federal anunciou a retomada do campus da UNILA projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, hoje denominado Campus Arandu. Essa obra de grande relevância arquitetônica está sendo construída a pleno vapor e será um dos campi universitários mais belos e representativos do mundo. O projeto, concebido por Oscar Niemeyer, é um presente para a cidade e representa a materialização física da integração latino-americana, a concretização do sonho do presidente Lula e de outros visionários de construir uma universidade, uma inteligência genuinamente latino-americana. Os conterrâneos iguaçuenses talvez ainda não tenham plena dimensão disso, mas o Campus Arandu irá mudar profundamente a realidade de Foz do Iguaçu. Esse ícone arquitetônico da integração latino-americana será um espaço de trocas acadêmicas, de estabelecimento de organismos multilaterais, de atração de turistas e visitantes do mundo todo, além de estimular o desenvolvimento tecnológico e socioeconômico da região trinacional e de todo o Paraná.
O poder simbólico e cultural de uma universidade com a magnitude da UNILA é incalculável. Somente quem tem o privilégio de ministrar aulas e sentir na pele a gratidão de alunos de toda a América Latina, muitas vezes fugindo de guerras e da total falta de perspectivas, sabe o que é a esperança no olhar do jovem que, agora, passa a vislumbrar um futuro possível. Realmente, não tem preço. Tem-se hoje, em construção, a estrutura física que irá receber essa inteligência e se tornar símbolo da integração genuinamente latino-americana, consolidando a cidade como um farol do conhecimento, capaz de iluminar e guiar toda a América Latina e o Caribe rumo a um futuro mais promissor.
Nos últimos anos, ganhou grande destaque o termo resiliência, frequentemente utilizado no sentido de suportar os golpes da vida e seguir em frente. A ideia remete, inclusive, ao conhecido verso do samba-canção: “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. O conceito, contudo, tem origem na mecânica dos materiais, em que resiliência significa a capacidade de uma estrutura absorver impactos e energia sem se romper, mantendo sua integridade. Sob essa perspectiva, o termo revela-se particularmente adequado para descrever a trajetória do povo brasileiro. Não por acaso, consolidou-se no imaginário nacional a expressão: “sou brasileiro e não desisto nunca”. Trata-se de uma síntese simbólica de uma sociedade historicamente submetida a adversidades, mas que insiste em preservar a altivez, a esperança e a capacidade de reconstrução. É nesse ponto que se alcança o cerne deste texto. Na 100ª Reunião Ordinária do Conselho Universitário da UNILA, foi aprovada a concessão do título de Doutor Honoris Causa ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. À luz do que foi exposto, trata-se de uma homenagem mais do que justa. A trajetória pessoal e política do presidente é marcada pela resiliência — não apenas individual, mas coletiva —, refletindo a experiência histórica dos povos latino-americanos, que resistem, não se curvam e seguem adiante, mesmo diante das maiores adversidades.
A legitimidade do título também se sustenta pelo papel decisivo do Governo Lula na criação da Universidade Federal da Integração Latino-Americana e na escolha de Foz do Iguaçu como sua sede. Soma-se a isso, nos anos mais recentes, o empenho político para a retomada e conclusão das obras do Campus Arandu, etapa fundamental para a consolidação do projeto universitário e de seu significado estratégico para a integração regional.
Eu fiquei particularmente feliz e muito satisfeito, primeiramente, por ser professor da UNILA neste momento histórico, mas principalmente por ser conselheiro e estar naquela 100º sessão do CONSUN/UNILA. Creio que poucos iguaçuenses tenham a noção do que é participar de um conselho universitário de uma Universidade Federal como a UNILA. É neste conselho que as ideias, proposições, teorias e teses, bem como toda a gestão universitária são debatidas, discutidas e colocadas à prova. Os conselhos universitários podem, muitas vezes, ser mordazes pela característica de debates francos e abertos. Mas, ao mesmo tempo, isto faz com que as melhores ideias e teses prosperem, consolidando a democracia universitária e fazendo com que todos possam ter a chance de ter as suas proposições discutidas. E foi neste contexto, de plena democracia universitária, que foi aprovada a concessão do título de Doutor Honoris Causa ao Presidente Lula. Novamente, nada mais justo.
Hoje a nossa cidade já assimilou a UNILA. A presença de professores, alunos, pesquisadores em conselhos e órgãos representativos populares da administração municipal faz com que os debates necessários para a melhoria da nossa cidade sejam agora alimentados com conhecimento produzido aqui, por pessoas que moram no município, que conhecem a sua realidade, que vivem os prazeres e dissabores da cidade. Os projetos de pesquisa, ensino e, principalmente, extensão da UNILA, nas mais diversas áreas do conhecimento — como medicina, engenharia, saúde coletiva, educação, geografia, história, biotecnologia, letras, mediação cultural, relações internacionais, música, antropologia, cinema, filosofia, arquitetura, urbanismo, ciências e políticas e muitas outras — levam conhecimento a milhares de iguaçuenses. Essa realidade era totalmente diferente no início da UNILA, há 15 anos.
É por isso que a UNILA em si é Honoris Causa em prol de Foz Iguaçu e da região trinacional: a UNILA trabalha em prol da causa do desenvolvimento científico, social, tecnológico e econômico com sustentabilidade para Foz do Iguaçu e toda região trinacional, América Latina e Caribe. Nada mais justo que a UNILA conceda o título de doutor Honoris causa para quem sempre lutou pela causa da UNILA e pela nossa cidade.
Por Ricardo Morel Hartmann
Professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA)
***Ricardo Morel Hartmann é engenheiro mecânico com mestrado e doutorado (2016) em combustão pela UFSC e doutorado sanduíche em combustão no Karlsruher Institut für Technologie na Alemanha (2013-2015). É professor de Engenharia de Energia na UNILA e, atualmente, ocupa o cargo de Secretário de Apoio Científico e Tecnológico na Universidade. É iguaçuense e viveu a diáspora de jovens na década de 1990, retornando à Foz por meio de concurso público federal de magistério superior em 2019.
¹Frigo, A., Preuss, L. T., Fronteiras e Direitos: a violência em Foz do Iguaçu e a perspectiva dos Direitos Humanos, Revista (RE)DEFINIÇÕES DAS FRONTEIRAS, Foz do Iguaçu, v. 3, n. 12, p. v, 2025;
²https://legado.sindireceita.org.br/legado/152-legado-boletins-antigos/134535-operacao-sucuri-prende-mais-dois-em-foz-do-iguacu;
³Sotuyo, J. C., Caminhos da Inovação – Uma Vivência Profissional, Editora Parque Itaipu, 1ª Edição, Foz do Iguaçu, 2022.
⁴https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/34797/deputado-propoe-extincao-da-unila-e-reducao-da-ufpr

