Estados Unidos, trumpismo e reconfiguração do poder global
Hoje, a ideia de que os Estados Unidos são um agressivo império em decadência, antes restrita a alguns círculos acadêmicos, jornalísticos ou políticos, alcançou um público mais amplo e passou a ser objeto de reflexão, tanto na grande mídia quanto em veículos alternativos, especialmente após os ataques à Venezuela e as ameaças a outras nações latino-americanas. Em sociedades treinadas pelas narrativas apocalípticas da indústria cultural a aguardar a salvação do planeta por algum caubói “americano”, sempre ameaçado por todo tipo de invasores, a percepção da decadência torna-se mais vívida quando esse personagem passa a ser emulado por Donald Trump. Ele encarna os desejos de extermínio de uma parte da sociedade, que quer ver aniquilados os “outros”, culpabilizados por todas as mazelas produzidas pelo modo de ser do capitalismo e do conservadorismo estadunidense.
Essa percepção potencializa-se à medida que a China se consolida como poderoso contraponto ao capitalismo ocidental, sem que os Estados Unidos e todos os demais países do Otanistão consigam produzir qualquer alternativa para além da guerra eterna — condição central para a extensão da hegemonia estadunidense e para a sobrevida de sua corte europeia, hoje acostumada a alguma pompa, mas sem poder real. A redefinição do tabuleiro geopolítico mundial torna-se cada vez mais agressiva, e os temores em torno do uso bélico da energia nuclear voltam a assombrar o mundo. Não está descartada a possibilidade de uma falência generalizada das sociedades humanas, já projetada em nossos corações e mentes por algum filme de Hollywood.
A indústria cultural estadunidense, consolidada ao longo do século XX, segue no século XXI moldando nossa memória, nossos desejos e oferecendo sentido a um mundo cada vez mais inóspito; oferece, também, crítica e autocrítica. Exporta seu modelo de negócios e é replicada em outras partes do mundo, como na Índia ou na Coreia do Sul. Captura dissidências, as embala, exibe e vende. Às vezes, porém, uma das muitas vozes insubmissas que circulam em seus próprios circuitos apropria-se das ferramentas com as quais essa indústria promove o apagamento daqueles que desafiam o modo de vida estadunidense. Essas vozes obrigam o mundo a reconhecer outras existências, outras histórias, outros protagonismos. É o caso de Bad Bunny.
Debí Tirar Más Fotos
Em janeiro de 2025, o cantor porto-riquenho Bad Bunny lançou o álbum Debí Tirar Más Fotos, com o qual interveio de inúmeras maneiras no debate público. Já na capa, uma cena simples, mas repleta de sentidos: duas cadeiras monobloco e uma mata ao fundo, onde se vê uma bananeira; a imagem, aparentemente despretensiosa, dialoga com bilhões de pessoas. Discutindo as “cadeiras monobloco”, o canal Normose publicou um vídeo no Instagram, no qual populares de diversos países do Sul Global olhavam a imagem do álbum de Bad Bunny e afirmavam que tais cadeiras fazia-os lembrar dos quintais de suas casas, de momentos de confraternização, de um sentido de comunidade e afeto. Já para os entrevistados europeus, elas nada diziam.
No contexto do álbum, a imagem também remete à ausência, já que as cadeiras estão vazias, as pessoas se foram. Tais temas são tratados em DTMF, faixa-título do álbum, que soa como um lamento arrependido de quem ficou e não expressou suficientemente seu afeto, desejando mais registros de um tempo vivido em comum com quem partiu.
Um segundo aspecto a ser destacado no álbum foi o lançamento, em 4 de julho de 2025 (dia em que se comemora a independência dos EUA), do videoclipe da canção NUEVAYoL. A certa altura do vídeo, um grupo de pessoas aparece reunido em torno de um rádio em que Donald Trump pede desculpas e afirma que “este país não é nada sem os imigrantes”. Pouco tempo depois, o cantor foi convidado para fazer o show do intervalo no Super Bowl, em 2026, um dos mais importantes eventos do calendário esportivo estadunidense. Trump, por sua vez, reagiu a isso, dizendo que “Nunca ouvi falar dele. Eu não sei quem ele é. Eu não sei por que estão fazendo isso, é uma loucura (…)”. Já Corey Lewandowski, assessor do Departamento de Segurança, qualificou como “vergonhosa” a escolha do artista porto-riquenho e ameaçou os migrantes: “Não existe nenhum lugar onde se possa oferecer refúgio a pessoas que estão neste país ilegalmente — nem no Super Bowl, nem em qualquer outro lugar. Nós vamos encontrar vocês. Nós vamos prendê-los. Nós vamos colocá-los em um centro de detenção e nós vamos deportá-los.”
Os Estados Unidos foram excluídos da turnê mundial de Debí Tirar Más Fotos, não apenas como resposta às declarações de Trump e Lewandowski, mas visando impedir que o público migrante eventualmente seja capturado pelo ICE (Immigration and Customs Enforcement), cujas imagens das batidas em massa em locais de trabalho e bairros populares ficaram famosas na Internet. Esse órgão promove cada vez mais prisões de pessoas sem antecedentes e deportações, protagonizando grotescos espetáculos da xenofobia imperial. O efeito colateral da exclusão dos EUA foi o incremento dos shows em Porto Rico, que tiveram um efeito importante sobre o turismo na ilha. Segundo a Rolling Stone Brasil, a turnê de Bad Bunny gerou centenas de milhões de dólares em receitas diretas e indiretas, em um período de baixa temporada, além de reposicionar San Juan como palco de grandes eventos culturais internacionais. O gráfico a seguir demonstra o chamado “efeito Bad Bunny”:

A retirada dos Estados Unidos do roteiro da turnê como resposta à violência institucional que paira sobre uma parcela significativa da população que habita os Estados Unidos, seja ela migrante ou não, teve como efeito “colateral” trazer visibilidade à Porto Rico, incrementando o turismo.
Bad Bunny e a resistência cultural caribenha
Bad Bunny é o primeiro artista porto-riquenho da geração Z a alcançar o status de estrela global, fazendo sua entrada em cena profundamente conectado às formas de comunicação do século XXI. Antes de se tornar presença constante nas rádios e na televisão convencionais, construiu sua projeção a partir das plataformas digitais, alcançando grande circulação, inicialmente no iCloud e em redes de compartilhamento online, em uma trajetória marcada pelo uso de novos circuitos de difusão cultural. Sua aparição e performances questionam o estereótipo de uma geração apática e alienada, consolidando-se como autor de uma obra que difunde e atualiza os dilemas da existência insular em torno do império, onde estão articuladas experiência cotidiana, colonialidade e pertencimento. Sua performance não se dissocia do que enuncia em suas canções, mantendo coerência entre a obra e a persona pública.
Como visto com suas performances, o artista porto-riquenho vai muito além da música, expressando uma forma complexa de resistência cultural. Mas, além das dimensões mencionadas neste texto, o fundamental da obra, as canções do álbum DTMF, divulgam a história de Porto Rico em perspectiva crítica, refletido sobre memórias, perdas, deslocamentos, violências e resistências, em letras que abordam o turismo predatório, a gentrificação, a migração forçada, a violência colonial e a precarização da vida sob o neoliberalismo. Esses temas às vezes são abordados de forma direta e, em outras, por meio de metáforas, quase sempre dialogando com processos vividos em outras partes da América Latina. Trata-se de uma obra que ajuda a compreender os dilemas presentes do povo latino-americano, pelas lentes e ouvidos caribenhos.
Por Patricia Mechi
Professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA)
Referências
https://www.bloomberglinea.com.br/estilo-de-vida/efeito-bad-bunny-turne-movimenta-us-181-milhoes-e-aquece-turismo-em-porto-rico/
https://rollingstone.com.br/musica/quanto-dinheiro-os-shows-de-bad-bunny-realmente-geraram-para-porto-rico/

