Nota: Em defesa da soberania da Venezuela, do poder popular e da Pátria Grande

O Maloca — Grupo de Estudos em Urbanismo do Sul da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), com sede em Foz do Iguaçu, Brasil, que desde 2013 atua na defesa da autonomia e soberania dos povos, vem a público manifestar seu veemente rechaço à escalada da agressão imperialista contra a Venezuela impetrada pelos Estados Unidos da América. 

Esta ofensiva representa uma grave ameaça ao povo venezuelano e, sobretudo, à estabilidade e à autodeterminação de toda a Pátria Grande. Diante deste cenário crítico, evocamos a memória e a luta de Simón Bolívar, que combateu a ingerência colonial da Espanha e, com lucidez histórica, anteviu os perigos vindouros do Norte, cuja sanha de dominação foi proclamada pelo presidente daquele emergente país, no início do século XIX, sob o lema “a América para os americanos”. A advertência de Bolívar, em 1829, permanece perturbadoramente atual ao afirmar que “os Estados Unidos parecem destinados pela Providência a espalhar a praga da miséria pela América, em nome da liberdade”. Seu diagnóstico político tem sido confirmado ao longo de dois séculos de intervenções, bloqueios, golpes e, agora, guerras híbridas no continente.

A Venezuela — berço de Guaicaipuro, Miranda, Bolívar, Luisa Cáceres, Juana La Avanzadora e tantos outros e outras — honra essa linhagem de resistência ao recusar ser quintal de potências estrangeiras!

O cerco hodierno possui alvos nítidos, explicitados na retórica de Donald Trump: o sequestro de lideranças políticas e a confissão aberta do desejo de se apoderar do petróleo venezuelano, com justificativas espúrias, tomando posse das riquezas alheias. 

Este ataque não tem nada a ver com a alegada “defesa da democracia”. Pelo contrário, trata-se da imposição de um modelo extrativista predatório que tende a se espalhar por todo o continente, a partir da invasão da Venezuela. Tal ingerência aprofunda uma lógica de exploração que ignora a soberania nacional e agravará severamente as condições climáticas do país, que já vivencia momentos ambientais críticos. Deve-se atentar, ademais, para a invasão de um país amazônico, região com a maior biodiversidade do planeta, imputando riscos reais de destruição, por um lado, e saque e espoliação das riquezas, por outro, colocando em alerta os países limítrofes em defesa da floresta e seus povos.

A segurança das comunidades e dos territórios venezuelanos encontra-se sob ameaça direta. As políticas de cerco e intimidação recaem desigualmente sobre as populações mais vulneráveis, comprometendo o direito básico de viver, circular e permanecer no próprio território. Para além da retórica diplomática, trata-se de uma ofensiva que busca desorganizar a vida cotidiana, interromper laços comunitários e inviabilizar formas coletivas de cuidado e decisão. O alvo é tanto 0 governo, quanto os processos sociais que sustentam experiências de democracia direta, autogestão e Poder Popular, pilares de projetos de autonomia que o urbanismo do Sul reconhece e defende.

Não há horizonte real de paz, democracia ou liberdade enquanto a ordem capitalista seguir sustentada por dispositivos militares e imperiais. Diante desse cenário, afirmamos não haver neutralidade possível frente à violência imperialista. Como grupo de pesquisa comprometido com as realidades latino-americanas, rejeitamos qualquer forma de tutela externa que submeta povos e territórios à lógica da força, do saque e da dominação. Reiteramos nosso posicionamento pelo fim imediato das sanções, pela interrupção do saque dos bens comuns e contra toda tentativa de intervenção militar ou política. 

Foz do Iguaçu, 03 de janeiro de 2026.

Esta nota foi elaborada coletivamente, com a colaboração direta de pesquisadoras e pesquisadores venezuelanos que integram o Maloca.

Imagem: Madelein Garcia/Instagram

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