Consultório de Psicoterapia Assistida por Psicodélicos amplia possibilidades de pesquisa na UNILA
Espaço possibilita a realização de estudos voltados à saúde mental; design foi criado por estudantes de Arquitetura e Urbanismo
Os estudantes do curso de Arquitetura e Urbanismo da UNILA tiveram, recentemente, um desafio diferente: criar o design para um consultório de psicologia assistida por psicodélicos (PAP). O trabalho surgiu de uma parceria entre o Laboratório de Cannabis Medicinal e Medicina Psicodélica (LCP) e o curso de Arquitetura, na disciplina de Design de Interiores. A atividade incluiu todo o estudo teórico e a parte prática, agregando conhecimentos valiosos para os estudantes.
De acordo com a professora Karine Queiroz, do curso de Arquitetura e Urbanismo, o projeto ocorreu no escopo da curricularização da extensão, em diálogo com a Usina Criativa (outro laboratório do curso). “A curricularização da extensão traz uma modificação propositiva para dentro dos cursos, que precisam ter o estudo de campo e essa questão de atendimento à comunidade, e ela se encontra nessa relação entre os dois laboratórios”, frisa.
Para este trabalho, para atender às demandas específicas da PAP, os estudantes tiveram de utilizar o conceito de setting, “que é o espaço que abraça o paciente e oportuniza as relações de autoconstrução, de autopoiesis, que são promovidas pelo tratamento assistido com psicodélicos”, complementa Karine.

O espaço laboratorial foi concebido, assim, no intuito de prover aconchego e conforto, além da sensação de expansão do espaço, com efeitos promovidos pelo padrão de cores, iluminação, decoração, texturas, entre outros elementos que possam favorecer a introspecção do paciente com o atendimento. “Esta primeira sala usou como referências as formas e cores do cogumelo psilocybina, portanto, tem uma série de tons, cores e padrões orgânicos da natureza que são inspirados nos cogumelos”, detalha. A professora informa, também, que a expectativa é continuar trabalhando em parceria com o LCP semestralmente, ampliando o trabalho para as demais salas do laboratório.
Mão na massa
O trabalho, porém, não foi apenas conceitual. A equipe envolvida no projeto colocou a mão na massa, partindo desde da coleta de materiais até a execução de partes da reforma. A estudante de Arquitetura Marizete Santos conta que foram 26 pessoas envolvidas no processo de criação, e um grupo menor na execução. “Teve um grupo, por exemplo, que ficou responsável pela pintura. Também passamos alguns finais de semana montando e colando bastidores, depois costurando”, conta.
Outra parte do trabalho que demandou dedicação minuciosa foi a montagem do biombo de divisória, lembra Marizete. “Precisamos ter atenção a detalhes como conforto acústico, lumínico, do mobiliário. Pensamos em obras de arte e mobiliário que não oferecessem risco e que fossem confortáveis ao paciente e profissionais. Um dos quesitos foi inserir no projeto obras de arte e artesanato autorais, para incentivar o processo criativo dos estudantes”, acrescenta.
Para a futura arquiteta, o trabalho foi uma experiência enriquecedora. “Fazer a conexão entre a equipe de trabalho e os nossos ‘clientes’ (o laboratório, no caso), gerenciar essa equipe, foi bem desafiador. Pois são muitas cabeças pensando sobre o mesmo assunto, cada uma com suas concepções de mundo, gostos particulares e tudo o mais”, destaca Marizete. “Minha parte favorita é a execução. Sou apaixonada por resultados. Entregar o projeto pronto e enxergar nos olhos dos clientes a satisfação de receber além do que pediram é muito bom”, completa.
A professora Karine ressalta a importância deste trabalho em parceria. “Ficamos muito felizes com essa oportunidade para os alunos de Arquitetura e Urbanismo”, diz. A expectativa, segundo ela, é a continuidade das atividades e a contribuição para a pesquisa científica. “Que a atenção e a replicação dessas metodologias nos façam acrescentar conhecimento, gerar artigos, publicações, tudo o que for possível.”

O que é PAP?
Conforme explica o coordenador do LCP, Francisney do Nascimento, “a Psicoterapia Assistida por Psicodélicos é um tipo de tratamento em que substâncias alteradoras de consciência são utilizadas em ambiente controlado, com supervisão médica e acompanhamento psicológico, para facilitar o acesso a conteúdos emocionais e promover processos terapêuticos. Durante a experiência, o cérebro fica mais sensível a estímulos e as barreiras psicológicas se flexibilizam, tornando o paciente mais aberto à reflexão e à vivência profunda de suas emoções”.
Por este motivo, é “fundamental que o consultório seja diferente de um espaço clínico comum: precisa ser acolhedor, confortável e cuidadosamente preparado — com iluminação suave, som adequado e atmosfera tranquila —, pois o ambiente influencia diretamente o tipo e a intensidade das experiências vividas, funcionando como uma extensão do próprio processo terapêutico”, salienta.

De acordo com Nascimento, uma pesquisa sobre o tema já está em andamento na UNILA, o que posiciona a Universidade na vanguarda da pesquisa em medicina psicodélica no Brasil e na América Latina, seguindo a trilha de centros de referência globais como Imperial College e John Hopkins. “Embora existam centros internacionais com tradição nesse campo, no contexto brasileiro — e, particularmente, na América Latina — a UNILA vem se posicionando como uma das instituições pioneiras ao articular, de forma integrada, abordagens clínicas, neurocientíficas e arquitetônicas. Isso não significa que dominamos o campo, mas que estamos avançando por um território ainda pouco explorado, com a ambição de produzir conhecimento original e evidências relevantes”, completa.
