{"id":3,"date":"2024-10-31T16:46:13","date_gmt":"2024-10-31T19:46:13","guid":{"rendered":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/internacionalizacao\/?p=1"},"modified":"2026-02-02T17:42:29","modified_gmt":"2026-02-02T20:42:29","slug":"um-balanco-das-relacoes-sul-sul-em-2024-unasul-mercosul-reformulado-e-brics","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/internacional\/2024\/10\/31\/um-balanco-das-relacoes-sul-sul-em-2024-unasul-mercosul-reformulado-e-brics\/","title":{"rendered":"Um balan\u00e7o das Rela\u00e7\u00f5es Sul Sul em 2024: UNASUL, MERCOSUL reformulado e BRICS+"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #000000\">Essa semana ser\u00e1 realizada na R\u00fassia a XVI C\u00fapula dos BRICS, evento que gera muitas expectativas pelo ingresso de 5 novos membros que se somar\u00e3o aos quatro fundadores em 2009 (Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China e \u00c1frica do Sul que ingressou em 2011) o que traz ao grupo um maior protagonismo no Sistema Internacional (SI) na defesa do multilateralismo e nas cr\u00edticas ao unilateralismo em anos recentes por parte dos EUA. \u00c9 um momento muito complexo no SI com v\u00e1rios conflitos e tens\u00f5es crescentes (Ucr\u00e2nia, Palestina, Israel, L\u00edbano, Ir\u00e3, etc.) envolvendo atores poderosos como EUA, OTAN, China e a pr\u00f3pria R\u00fassia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Na pr\u00f3xima C\u00fapula espera-se que o grupo passe por uma transforma\u00e7\u00e3o significativa \u00e0 medida que amplia sua ades\u00e3o para incluir cinco novas na\u00e7\u00f5es (Egito, Eti\u00f3pia, Ir\u00e3, Ar\u00e1bia Saudita e os Emirados \u00c1rabes Unidos), o chamado BRICS+. Essa expans\u00e3o representa uma mudan\u00e7a not\u00e1vel no cen\u00e1rio global, caracterizado por uma maior multipolaridade. Vale destacar que a Argentina, sob seu novo presidente Javier Milei, decidiu n\u00e3o aceitar o convite feito na XV C\u00fapula BRICS na \u00c1frica do Sul em 2023. A inclus\u00e3o de pa\u00edses como Ar\u00e1bia Saudita e outras pot\u00eancias, conhecidas por seu papel dominante na produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, refor\u00e7a a agenda energ\u00e9tica dos BRICS e sua capacidade de influenciar o mercado mundial de mat\u00e9rias-primas. Essa expans\u00e3o tamb\u00e9m reflete a busca estrat\u00e9gica do grupo para reduzir sua depend\u00eancia do d\u00f3lar americano. Por outro lado, as decis\u00f5es consensuais ser\u00e3o muito dif\u00edceis com a amplia\u00e7\u00e3o de novos membros, o que poderia levar a uma paralisia na tomada de decis\u00f5es sobre alguns temas controversos. Mas, ao mesmo tempo, denota o poder de atra\u00e7\u00e3o que esse eixo pol\u00edtico exerce no SI atualmente. Isso nos leva a uma reflex\u00e3o sobre um balan\u00e7o das chamadas rela\u00e7\u00f5es Sul Sul em 2024. Nesse artigo faremos uma compara\u00e7\u00e3o das potencialidades e limita\u00e7\u00f5es de tr\u00eas iniciativas que poderiam ser avaliadas como exemplos de coopera\u00e7\u00e3o Sul Sul atualmente: UNASUL, MERCOSUL e BRICS+.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Um primeiro ponto relevante \u00e9 reconstruir historicamente o conceito de rela\u00e7\u00f5es Sul Sul e sua retomada no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI. A hip\u00f3tese central que sustenta que essa coopera\u00e7\u00e3o \u00e9 qualitativamente diferente da Norte Norte ou Norte Sul \u00e9 que pa\u00edses que foram v\u00edtimas do colonialismo costumam ser mais respeitosos e n\u00e3o cooperam de forma condicionada como normalmente foi o m\u00e9todo adotado pelo Fundo Monet\u00e1rio Internacional, ou seja, financiavam pa\u00edses pobres, mas impunham severos programas recessivos nesses pa\u00edses.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>Origens da Coopera\u00e7\u00e3o Sul Sul<\/strong><\/span><br \/><span style=\"color: #000000\">A coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul teve como marco hist\u00f3rico a Confer\u00eancia de Bandung, realizada em 1955, na Indon\u00e9sia, reunindo l\u00edderes de vinte e nove Estados asi\u00e1ticos e africanos. O objetivo era a promo\u00e7\u00e3o da coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e cultural afro-asi\u00e1tica, como forma de oposi\u00e7\u00e3o ao que era considerado colonialismo ou neocolonialismo. Bandung marcou o in\u00edcio de demandas coletivas pelo Terceiro Mundo nos campos da pol\u00edtica (descoloniza\u00e7\u00e3o) e desenvolvimento; sendo que a maioria das demandas foram feitas atrav\u00e9s do f\u00f3rum da ONU e gradualmente foram aceitas. Simultaneamente, na Am\u00e9rica Latina j\u00e1 eram desenvolvidos os conceitos de centro e periferia, considerando o SI dividido entre Norte e Sul, especialmente nas interpreta\u00e7\u00f5es de Ra\u00fal Prebisch e Celso Furtado sobre o subdesenvolvimento da Am\u00e9rica Latina nas d\u00e9cadas de 1950 e 60. <\/span><br \/><span style=\"color: #000000\">Nesse sentido houve uma aproxima\u00e7\u00e3o dos objetivos de Bandung com as ideias econ\u00f4micas da CEPAL resultando na formaliza\u00e7\u00e3o da coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul, com a cria\u00e7\u00e3o da UNCTAD (Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Com\u00e9rcio e o Desenvolvimento) em 1964, sendo representativo que seu primeiro Secret\u00e1rio-Geral tenha sido Ra\u00fal Prebisch. Entretanto, a coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul perdeu for\u00e7a nos anos 1970 com a crise do petr\u00f3leo, a crescente heterogeneidade dos pa\u00edses do chamado Terceiro Mundo e com o avan\u00e7o da doutrina neoliberal no Ocidente, a qual defendia que o SI era \u00fanico e globalizado. <\/span><br \/><span style=\"color: #000000\">No in\u00edcio do s\u00e9culo XXI a coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul reaparece com for\u00e7a no cen\u00e1rio internacional, com a cria\u00e7\u00e3o de alguns blocos que defendem a ideia de que a coordena\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses do Sul pode diminuir a for\u00e7a dos pa\u00edses centrais, especialmente dos Estados Unidos, criando um SI que se prop\u00f5e \u201cmais justo e equilibrado\u201d, ou seja, um mundo multipolar. Entre eles destacaremos UNASUL, MERCOSUL REFORMULADO e BRICS+.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>UNASUL<\/strong><\/span><br \/><span style=\"color: #000000\">A UNASUL foi fundada em 2008 e era uma organiza\u00e7\u00e3o intergovernamental composta pelos doze Estados da Am\u00e9rica do Sul. A entidade, assim como outros processos de regionalismo na Am\u00e9rica Latina, seguiu um modelo intergovernamental de associa\u00e7\u00e3o, no qual os Estados soberanos s\u00e3o os principais atores na formula\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o desses mesmos processos. Diferentemente do modelo de integra\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia (EU) onde h\u00e1 foco em institui\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es de natureza supranacional, na UNASUL os Estados procuraram manter, acima da vis\u00e3o regional, o interesse nacional e a preserva\u00e7\u00e3o de suas soberanias. Os conceitos de n\u00e3o interven\u00e7\u00e3o, autonomia e autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos eram valores inquestion\u00e1veis \u200b\u200bdentro da institui\u00e7\u00e3o. Isso marca a singularidade do processo de integra\u00e7\u00e3o Sul-americana, com suas potencialidades, mas tamb\u00e9m com as suas limita\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Demonstrando a inten\u00e7\u00e3o de construir a integra\u00e7\u00e3o de forma multidimensional e se diferenciando da proposta neoliberal com foco apenas na integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, a UNASUL foi composta por 12 Conselhos espec\u00edficos, a saber: 1- Conselho Sul-Americano de Energia; 2- Conselho de Defesa Sul-Americano; 3- Conselho Sul-Americano de Sa\u00fade; 4- Conselho Sul-Americano de Desenvolvimento Social; 5- Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento; 6- Conselho Sul-Americano sobre o Problema Mundial das Drogas; 7- Conselho Sul-Americano de Economia e Finan\u00e7as; 8- Conselho Eleitoral da UNASUL; 9- Conselho Sul-Americano de Educa\u00e7\u00e3o; 10- Conselho Sul-Americano de Cultura; 11- Conselho Sul-Americano de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o e; 12- Conselho Sul-Americano de Seguran\u00e7a Cidad\u00e3, Justi\u00e7a e Coordena\u00e7\u00e3o de A\u00e7\u00f5es contra o Crime Organizado Transnacional.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Como se sabe, a UNASUL viveu um momento de profunda fragilidade, visto que em 20 de abril de 2018, o Brasil e outros cinco pa\u00edses suspenderam suas participa\u00e7\u00f5es na UNASUL. Os Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Brasil, da Argentina, Paraguai, Col\u00f4mbia, Chile e Peru naquele ano enviaram uma carta \u00e0 Presid\u00eancia Pro Tempore da UNASUL e informaram sobre a decis\u00e3o de suspender, por tempo indeterminado, a participa\u00e7\u00e3o nas reuni\u00f5es do bloco. A iniciativa, segundo o documento, foi motivada pelo impasse com o governo venezuelano em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 elei\u00e7\u00e3o do secret\u00e1rio-geral da organiza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Cabe ressaltar que em 2023 Brasil, Argentina e Col\u00f4mbia voltam ao bloco, o que trouxe um sopro de esperan\u00e7a na retomada dessa iniciativa. Por\u00e9m, em 30 de maio de 2023, com a inten\u00e7\u00e3o de relan\u00e7ar a UNASUL no terceiro governo Lula, o Brasil foi o anfitri\u00e3o de uma C\u00fapula de presidentes Sul-americano depois de muito tempo, mas a quest\u00e3o da crise venezuelana acabou gerando tensionamentos por parte de Chile e Uruguai que criticaram a postura brasileira de relativizar a democracia no pa\u00eds do norte sul-americano. Apesar da fragilidade da UNASUL, reflex\u00f5es te\u00f3ricas, pr\u00e1ticas e protocolos de integra\u00e7\u00e3o ser\u00e3o essenciais para a reconstru\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de unidade sul-americana.<\/span><br \/><span style=\"color: #000000\">MERCOSUL reformulado<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Em 1991, foi assinado o Tratado de Assun\u00e7\u00e3o, com vista ao estabelecimento de um mercado comum entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Segundo o site oficial do MERCOSUL, a organiza\u00e7\u00e3o tem promovido os princ\u00edpios da Democracia e do Desenvolvimento Econ\u00f4mico como pilares fundamentais da integra\u00e7\u00e3o, promovendo a integra\u00e7\u00e3o com rosto humano. Em linha com estes princ\u00edpios, foram acrescentados diversos acordos sobre imigra\u00e7\u00e3o, trabalho, quest\u00f5es culturais, sociais, entre muitos outros a destacar, que s\u00e3o de extrema import\u00e2ncia para os seus habitantes. Chamamos esse processo de MERCOSUL reformulado, pois nasceu sob o forte neoliberalismo de Collor de Melo no Brasil (presidente entre 1990-1992) e de Carlos Menem (presidente entre 1989-1999) na Argentina. Nossa hip\u00f3tese \u00e9 que, com o fracasso da aplica\u00e7\u00e3o do neoliberalismo nos dois pa\u00edses, a pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o foi repensada para ir al\u00e9m da integra\u00e7\u00e3o puramente econ\u00f4mica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Esses acordos significaram a incorpora\u00e7\u00e3o das dimens\u00f5es Cidad\u00e3, Integra\u00e7\u00e3o Social e Produtiva, entre outras, para as quais, por um lado, foi necess\u00e1rio adaptar e ampliar o quadro institucional do bloco em toda a regi\u00e3o, atendendo \u00e0s novas demandas e aprofundando a efetiva participa\u00e7\u00e3o da cidadania por diversos meios; e por outro lado, teve que dotar-se de mecanismos pr\u00f3prios de financiamento solid\u00e1rio, como o Fundo para a Converg\u00eancia Estrutural do MERCOSUL (FOCEM), entre outros fundos. Os principais \u00f3rg\u00e3os criados neste processo que chamamos de MERCOSUL reformulado s\u00e3o: o Tribunal Permanente de Revis\u00e3o (TPR) para a resolu\u00e7\u00e3o de conflitos entre as partes componentes do MERCOSUL; o FOCEM; o Parlamento do MERCOSUL (PARLASUL) o Instituto Social do MERCOSUL (ISM); o Instituto de Pol\u00edticas P\u00fablicas de Direitos Humanos (IPPDH); e as Unidades de Apoio \u00e0 Participa\u00e7\u00e3o Social (UPS).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A reformula\u00e7\u00e3o do MERCOSUL com a amplia\u00e7\u00e3o de suas fun\u00e7\u00f5es \u00e9 clara, mas apesar do aumento do seu car\u00e1ter multidimensional, nos \u00faltimos anos passou por crise e estagna\u00e7\u00e3o. Nos \u00faltimos anos politicamente Brasil e Argentina vivenciaram alguns desencontros ideol\u00f3gicos (per\u00edodo em que Bolsonaro e Fern\u00e1ndez eram os presidentes e atualmente com Lula e Milei) que se refletiu em retra\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio bilateral e com o mandat\u00e1rio argentino nem sequer presenciando a \u00faltima C\u00fapula presidencial ocorrida em Assun\u00e7\u00e3o em 2024. Al\u00e9m desses fatores internos \u00e9 tamb\u00e9m relevante considera que a China passou a ser o principal parceiro comercial de v\u00e1rios pa\u00edses da regi\u00e3o dificultando ainda mais a constru\u00e7\u00e3o de cadeias produtivas regionais diante do dinamismo chin\u00eas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>BRICS+<\/strong><\/span><br \/><span style=\"color: #000000\">Em 2023, os BRICS tiveram a maior ades\u00e3o formal de novos membros desde sua cria\u00e7\u00e3o. No entanto, nesse momento, o Brasil argumentou que deveriam ser estabelecidos crit\u00e9rios claros. As decis\u00f5es consensuais ser\u00e3o muito dif\u00edceis com a amplia\u00e7\u00e3o de novos membros, o que poderia levar a uma paralisia na tomada de decis\u00f5es sobre alguns temas controversos. Mas, ao mesmo tempo, denota o poder de atra\u00e7\u00e3o que esse eixo pol\u00edtico exerce no SI atualmente.<\/span><br \/><span style=\"color: #000000\">\u00c9 relevante mencionar que a Turquia solicitou oficialmente sua ades\u00e3o aos BRICS em setembro de 2024, com o objetivo de se tornar o d\u00e9cimo membro do bloco. A iniciativa reflete o desejo de fortalecer os v\u00ednculos com as economias emergentes. Segundo a Revista F\u00f3rum &#8220;frustrada pela falta de avan\u00e7os em sua ades\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o Europeia, a Turquia busca novas alian\u00e7as. Juntar-se aos BRICS pode abrir mercados, atrair investimentos e promover a inova\u00e7\u00e3o.&#8221; Segundo a reportagem, a Turquia deseja reduzir sua depend\u00eancia do Ocidente, diversificar os v\u00ednculos econ\u00f4micos e aumentar a estabilidade financeira, especialmente diante das flutua\u00e7\u00f5es da taxa de c\u00e2mbio. No atual momento mais de 30 pa\u00edses solicitaram seus ingressos no BRICS o que por um lado mostra a import\u00e2ncia que o grupo foi assumindo no SI, mas por outro sem crit\u00e9rios claros de ingresso, pode redundar em um arranjo de pa\u00edses t\u00e3o diversos que a possibilidade de se construir consensos e se materializar as propostas sejam m\u00ednimas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\"><strong>Considera\u00e7\u00f5es Finais<\/strong><\/span><br \/><span style=\"color: #000000\">Tanto UNASUL, quanto o MERCOSUL e o BRICS+ apresentam muitos desafios, por\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 como questionar que enriquecem a an\u00e1lise das probabilidades de uma coopera\u00e7\u00e3o internacional menos condicionada e hier\u00e1rquica e na constru\u00e7\u00e3o de um SI e regional multilaterais ampliando as possibilidades desses pa\u00edses diminu\u00edrem suas vulnerabilidades externas e depend\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o as pot\u00eancias ocidentais.<\/span><\/p>\n\n\n<p class=\"has-palette-color-12-color has-text-color has-link-color wp-elements-a58fa80cf081c54eb6214170dabec3f9\">Por F\u00e1bio Borges<br>Professor da Universidade Federal da Integra\u00e7\u00e3o Latino-Americana (UNILA)<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa semana ser\u00e1 realizada na R\u00fassia a XVI C\u00fapula dos BRICS, evento que gera muitas expectativas pelo ingresso de 5 novos membros que se somar\u00e3o aos quatro fundadores em 2009 (Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China e \u00c1frica do Sul que ingressou em 2011) o que traz ao grupo um maior protagonismo no Sistema Internacional (SI) na defesa do multilateralismo e nas cr\u00edticas ao unilateralismo em anos recentes por parte dos EUA. \u00c9 um momento muito complexo no SI com v\u00e1rios conflitos e tens\u00f5es crescentes (Ucr\u00e2nia, Palestina, Israel, L\u00edbano, Ir\u00e3, etc.) envolvendo atores poderosos como EUA, OTAN, China e a pr\u00f3pria R\u00fassia. Na pr\u00f3xima C\u00fapula espera-se que o grupo passe por uma transforma\u00e7\u00e3o significativa \u00e0 medida que amplia sua ades\u00e3o para incluir cinco novas na\u00e7\u00f5es (Egito, Eti\u00f3pia, Ir\u00e3, Ar\u00e1bia Saudita e os Emirados \u00c1rabes Unidos), o chamado BRICS+. Essa expans\u00e3o representa uma mudan\u00e7a not\u00e1vel no cen\u00e1rio global, caracterizado por uma maior multipolaridade. Vale destacar que a Argentina, sob seu novo presidente Javier Milei, decidiu n\u00e3o aceitar o convite feito na XV C\u00fapula BRICS na \u00c1frica do Sul em 2023. A inclus\u00e3o de pa\u00edses como Ar\u00e1bia Saudita e outras pot\u00eancias, conhecidas por seu papel dominante na produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, refor\u00e7a a agenda energ\u00e9tica dos BRICS e sua capacidade de influenciar o mercado mundial de mat\u00e9rias-primas. Essa expans\u00e3o tamb\u00e9m reflete a busca estrat\u00e9gica do grupo para reduzir sua depend\u00eancia do d\u00f3lar americano. Por outro lado, as decis\u00f5es consensuais ser\u00e3o muito dif\u00edceis com a amplia\u00e7\u00e3o de novos membros, o que poderia levar a uma paralisia na tomada de decis\u00f5es sobre alguns temas controversos. Mas, ao mesmo tempo, denota o poder de atra\u00e7\u00e3o que esse eixo pol\u00edtico exerce no SI atualmente. Isso nos leva a uma reflex\u00e3o sobre um balan\u00e7o das chamadas rela\u00e7\u00f5es Sul Sul em 2024. Nesse artigo faremos uma compara\u00e7\u00e3o das potencialidades e limita\u00e7\u00f5es de tr\u00eas iniciativas que poderiam ser avaliadas como exemplos de coopera\u00e7\u00e3o Sul Sul atualmente: UNASUL, MERCOSUL e BRICS+. Um primeiro ponto relevante \u00e9 reconstruir historicamente o conceito de rela\u00e7\u00f5es Sul Sul e sua retomada no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI. A hip\u00f3tese central que sustenta que essa coopera\u00e7\u00e3o \u00e9 qualitativamente diferente da Norte Norte ou Norte Sul \u00e9 que pa\u00edses que foram v\u00edtimas do colonialismo costumam ser mais respeitosos e n\u00e3o cooperam de forma condicionada como normalmente foi o m\u00e9todo adotado pelo Fundo Monet\u00e1rio Internacional, ou seja, financiavam pa\u00edses pobres, mas impunham severos programas recessivos nesses pa\u00edses. Origens da Coopera\u00e7\u00e3o Sul SulA coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul teve como marco hist\u00f3rico a Confer\u00eancia de Bandung, realizada em 1955, na Indon\u00e9sia, reunindo l\u00edderes de vinte e nove Estados asi\u00e1ticos e africanos. O objetivo era a promo\u00e7\u00e3o da coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e cultural afro-asi\u00e1tica, como forma de oposi\u00e7\u00e3o ao que era considerado colonialismo ou neocolonialismo. Bandung marcou o in\u00edcio de demandas coletivas pelo Terceiro Mundo nos campos da pol\u00edtica (descoloniza\u00e7\u00e3o) e desenvolvimento; sendo que a maioria das demandas foram feitas atrav\u00e9s do f\u00f3rum da ONU e gradualmente foram aceitas. Simultaneamente, na Am\u00e9rica Latina j\u00e1 eram desenvolvidos os conceitos de centro e periferia, considerando o SI dividido entre Norte e Sul, especialmente nas interpreta\u00e7\u00f5es de Ra\u00fal Prebisch e Celso Furtado sobre o subdesenvolvimento da Am\u00e9rica Latina nas d\u00e9cadas de 1950 e 60. Nesse sentido houve uma aproxima\u00e7\u00e3o dos objetivos de Bandung com as ideias econ\u00f4micas da CEPAL resultando na formaliza\u00e7\u00e3o da coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul, com a cria\u00e7\u00e3o da UNCTAD (Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Com\u00e9rcio e o Desenvolvimento) em 1964, sendo representativo que seu primeiro Secret\u00e1rio-Geral tenha sido Ra\u00fal Prebisch. Entretanto, a coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul perdeu for\u00e7a nos anos 1970 com a crise do petr\u00f3leo, a crescente heterogeneidade dos pa\u00edses do chamado Terceiro Mundo e com o avan\u00e7o da doutrina neoliberal no Ocidente, a qual defendia que o SI era \u00fanico e globalizado. No in\u00edcio do s\u00e9culo XXI a coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul reaparece com for\u00e7a no cen\u00e1rio internacional, com a cria\u00e7\u00e3o de alguns blocos que defendem a ideia de que a coordena\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses do Sul pode diminuir a for\u00e7a dos pa\u00edses centrais, especialmente dos Estados Unidos, criando um SI que se prop\u00f5e \u201cmais justo e equilibrado\u201d, ou seja, um mundo multipolar. Entre eles destacaremos UNASUL, MERCOSUL REFORMULADO e BRICS+. UNASULA UNASUL foi fundada em 2008 e era uma organiza\u00e7\u00e3o intergovernamental composta pelos doze Estados da Am\u00e9rica do Sul. A entidade, assim como outros processos de regionalismo na Am\u00e9rica Latina, seguiu um modelo intergovernamental de associa\u00e7\u00e3o, no qual os Estados soberanos s\u00e3o os principais atores na formula\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o desses mesmos processos. Diferentemente do modelo de integra\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia (EU) onde h\u00e1 foco em institui\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es de natureza supranacional, na UNASUL os Estados procuraram manter, acima da vis\u00e3o regional, o interesse nacional e a preserva\u00e7\u00e3o de suas soberanias. Os conceitos de n\u00e3o interven\u00e7\u00e3o, autonomia e autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos eram valores inquestion\u00e1veis \u200b\u200bdentro da institui\u00e7\u00e3o. Isso marca a singularidade do processo de integra\u00e7\u00e3o Sul-americana, com suas potencialidades, mas tamb\u00e9m com as suas limita\u00e7\u00f5es. Demonstrando a inten\u00e7\u00e3o de construir a integra\u00e7\u00e3o de forma multidimensional e se diferenciando da proposta neoliberal com foco apenas na integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, a UNASUL foi composta por 12 Conselhos espec\u00edficos, a saber: 1- Conselho Sul-Americano de Energia; 2- Conselho de Defesa Sul-Americano; 3- Conselho Sul-Americano de Sa\u00fade; 4- Conselho Sul-Americano de Desenvolvimento Social; 5- Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento; 6- Conselho Sul-Americano sobre o Problema Mundial das Drogas; 7- Conselho Sul-Americano de Economia e Finan\u00e7as; 8- Conselho Eleitoral da UNASUL; 9- Conselho Sul-Americano de Educa\u00e7\u00e3o; 10- Conselho Sul-Americano de Cultura; 11- Conselho Sul-Americano de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o e; 12- Conselho Sul-Americano de Seguran\u00e7a Cidad\u00e3, Justi\u00e7a e Coordena\u00e7\u00e3o de A\u00e7\u00f5es contra o Crime Organizado Transnacional. Como se sabe, a UNASUL viveu um momento de profunda fragilidade, visto que em 20 de abril de 2018, o Brasil e outros cinco pa\u00edses suspenderam suas participa\u00e7\u00f5es na UNASUL. Os Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Brasil, da Argentina, Paraguai, Col\u00f4mbia, Chile e Peru naquele ano enviaram uma carta \u00e0 Presid\u00eancia Pro Tempore da UNASUL e informaram sobre a decis\u00e3o de suspender, por tempo indeterminado, a participa\u00e7\u00e3o nas reuni\u00f5es do bloco. 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