{"id":13328,"date":"2026-01-28T11:11:39","date_gmt":"2026-01-28T14:11:39","guid":{"rendered":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/internacional\/?p=13328"},"modified":"2026-02-05T11:33:44","modified_gmt":"2026-02-05T14:33:44","slug":"uma-cidade-com-duas-cidades-e-uma-historia-a-se-contar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/internacional\/2026\/01\/28\/uma-cidade-com-duas-cidades-e-uma-historia-a-se-contar\/","title":{"rendered":"Uma cidade com duas cidades e uma hist\u00f3ria a se contar"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-palette-color-4-color has-text-color has-link-color wp-elements-f8c649a9b7b595cc7a87bda5fc23a6c1\">Foz do Igua\u00e7u \u00e9 uma cidade sui generis, seja pelo encantamento que oferece a turistas do mundo todo com as Cataratas do Igua\u00e7u, a Itaipu Binacional, o Marco das Tr\u00eas Fronteiras ou, ainda, com a natureza exuberante da \u201cCidade das \u00c1guas\u201d. A localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica privilegiada de Foz do Igua\u00e7u, contando com duas fronteiras no cora\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul, tamb\u00e9m ajuda a atrair turistas que buscam a facilidade de compras a pre\u00e7os mais baixos, no Paraguai e na Argentina. H\u00e1 muitas outras cidades no mundo que contam com atrativos naturais ou de compras, mas, com todos eles ao mesmo tempo, como ocorre em Foz do Igua\u00e7u, n\u00e3o h\u00e1 outra no mundo.<br><br>\u00c9 impressionante que, dentro desta mesma cidade, haja duas cidades totalmente distintas: a cidade tur\u00edstica, que encanta pela tranquilidade, beleza e organiza\u00e7\u00e3o, e outra totalmente oposta, onde impera uma mistura entr\u00f3pica, a desorganiza\u00e7\u00e3o alucinante da Ponte da Amizade e de seus arredores, nas barrancas do rio Paran\u00e1. Esta cidade louca e desorganizada configurou-se, ao longo das d\u00e9cadas de 1970, 1980 e 1990, como rota do contrabando, do descaminho e do tr\u00e1fico de drogas e armas, atraindo compristas e aventureiros do Brasil inteiro \u2014 e trazendo a reboque a prolifera\u00e7\u00e3o de condutas delituosas e do crime organizado.<br><br>Em paralelo ao in\u00edcio e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da Itaipu Binacional, muitas pessoas vieram para Foz do Igua\u00e7u em busca das oportunidades de uma fronteira praticamente intocada. Era comum os pioneiros contarem hist\u00f3rias de uma cidade que \u201cera s\u00f3 mato\u201d. As coisas foram acontecendo e as pessoas foram chegando; ao final dos anos 1990, Foz do Igua\u00e7u j\u00e1 era extremamente famosa no Brasil como o \u201cpara\u00edso da muamba\u201d, destino preferencial dos chamados \u201cexecutivos da fronteira\u201d. Nesse per\u00edodo, ao final da d\u00e9cada de 1990, Foz do Igua\u00e7u era uma cidade muito violenta, com \u00e9pocas do ano em que ocorriam entre cinco e dez assassinatos por fim de semana. Eram comuns chacinas e acertos de contas. O auge da taxa de mortalidade ocorreu em 2006, com aproximadamente 300 assassinatos no ano\u00b9, isso sem contar as ocorr\u00eancias clandestinas que n\u00e3o eram contabilizadas pela pol\u00edcia. A situa\u00e7\u00e3o, no final dos anos 1990 e no in\u00edcio da d\u00e9cada de 2000, era t\u00e3o cr\u00edtica que a equipe do presidente da Rep\u00fablica \u00e0 \u00e9poca chegou a aventar a ideia de construir um muro nas margens do rio Paran\u00e1 para tentar frear a criminalidade. Poderia at\u00e9 funcionar de certo modo, mas seria a coroa\u00e7\u00e3o do sectarismo, daquilo que \u00e9 exatamente o oposto da integra\u00e7\u00e3o latino-americana.<br><br>Em termos de perspectiva de futuro para os jovens igua\u00e7uenses, o final dos anos 1990 tamb\u00e9m n\u00e3o era promissor. Havia poucas possibilidades: ou se trabalhava no Paraguai como vendedor ou mesmo como \u201claranja\u201d dos \u201cexecutivos da fronteira\u201d, ou, com sorte, conseguia-se algum emprego com carteira assinada em um hotel ou empresa do setor do turismo. Existia apenas uma universidade p\u00fablica, a UNIOESTE, que oferecia poucas vagas. Esse cen\u00e1rio consolidou o \u00eaxodo de jovens de Foz do Igua\u00e7u em busca de melhores oportunidades, o que foi o caso deste autor, que foi estudar em Santa Catarina, pois, \u00e0 \u00e9poca, n\u00e3o havia em Foz o curso de engenharia que buscava. Essa falta de oportunidades n\u00e3o era nada mais, nada menos, do que consequ\u00eancia direta da aus\u00eancia de cuidado e de investimentos por parte de Curitiba e de Bras\u00edlia. A ideia que predominava era a de que Foz, uma cidade joia do turismo, conseguiria, em tese, gerar os pr\u00f3prios recursos. Ao mesmo tempo, o problema do contrabando, do descaminho e da criminalidade seria resolvido com pol\u00edcia. Infelizmente, os investimentos em infraestrutura para o turismo nunca vinham, mas o policiamento sempre teve preponder\u00e2ncia.<br><br>Esse tratamento, focado principalmente na repress\u00e3o e deixando em segundo plano os investimentos em educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e infraestrutura, consolidou a impress\u00e3o de que Foz era a \u201ccloaca\u201d do Paran\u00e1, sempre tratada como um problema distante dos grandes centros decis\u00f3rios \u2014 e recebendo apenas os restos dos investimentos relevantes realizados no Paran\u00e1 e no Brasil. A cidade passou a ser vista como um portal do contrabando do Paraguai, pa\u00eds associado \u00e0 falsifica\u00e7\u00e3o, \u00e0 malversa\u00e7\u00e3o e a s\u00edmbolos de coisas ruins. A integra\u00e7\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o conjunta de riqueza, pensar a integra\u00e7\u00e3o com intelig\u00eancia, nunca foi prioridade em Curitiba, muito menos em Bras\u00edlia.<br><br><strong>A d\u00e9cada da mudan\u00e7a<\/strong><br>As coisas come\u00e7aram a mudar em Foz do Igua\u00e7u como consequ\u00eancia das transforma\u00e7\u00f5es que o Governo Federal passou a implementar a partir de 2003. Foram iniciadas pol\u00edticas de valoriza\u00e7\u00e3o e profissionaliza\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal, da Receita Federal, do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal e da Justi\u00e7a Federal.<br><br>Para quem viveu em Foz do Igua\u00e7u nos anos 1990, o termo \u201cser Federal\u201d carregava significados bem conhecidos: eram frequentes os relatos de servidores federais que ostentavam um padr\u00e3o de vida muito acima dos proventos da carreira, circulando em carros importados e cercados por seguran\u00e7as armados. Esse quadro come\u00e7ou a se alterar a partir da Opera\u00e7\u00e3o Sucuri\u00b2, quando foram presos 22 policiais federais, tr\u00eas agentes da Receita Federal e dois agentes da PRF. Tratava-se de um marco importante no enfraquecimento do imp\u00e9rio do descaminho em Foz.<br><br>No mesmo ano de 2003 iniciava-se a empreitada da inova\u00e7\u00e3o com a cria\u00e7\u00e3o do Parque Tecnol\u00f3gico de Itaipu, o ic\u00f4nico PTI, hoje Itaipu Parquetec. Tratava-se da concretiza\u00e7\u00e3o de um sonho acalentado por diversos professores e pesquisadores que, at\u00e9 ent\u00e3o, atuavam de forma isolada, cada um em sua pr\u00f3pria \u201craia\u201d de inova\u00e7\u00e3o. Esse movimento ganhou for\u00e7a quando o professor Juan Carlos Sotuyo obteve o apoio do ent\u00e3o DGB (Diretor-Geral Brasileiro) da Itaipu Binacional, o igua\u00e7uense Jorge Samek. A trajet\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o do PTI \u00e9 narrada pelo professor Sotuyo em livro lan\u00e7ado em 2022, no qual descreve, em detalhes, como o diretor Samek e o Governo Federal incentivaram e financiaram a instala\u00e7\u00e3o do PTI em Foz do Igua\u00e7u\u00b3.<br><br>Estavam lan\u00e7adas as pedras fundamentais da mudan\u00e7a do perfil socioecon\u00f4mico de Foz do Igua\u00e7u: primeiro, combater a criminalidade e a vis\u00e3o simb\u00f3lica da impunidade, por meio da profissionaliza\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal (PF), Receita Federal (RF), Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal (PRF), Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) e da Justi\u00e7a Federal; a segunda a\u00e7\u00e3o foi oferecer uma alternativa com empregos de alto n\u00edvel e possibilidade de gera\u00e7\u00e3o de riqueza e renda por meio da pesquisa, do desenvolvimento e da inova\u00e7\u00e3o. Ao final da d\u00e9cada de 2010, duas importantes mudan\u00e7as estruturais sacudiram a sociedade igua\u00e7uense: 1) no decorrer da d\u00e9cada de 2010, os servidores da PF, RF e PRF passaram a ser vistos como profissionais \u00e9ticos e admirados pelo trabalho e pela dedica\u00e7\u00e3o no combate ao crime organizado; 2) os investimentos no PTI e a cria\u00e7\u00e3o da UNILA, em 2010, mudaram a perspectiva do jovem igua\u00e7uense; agora, era poss\u00edvel estudar em uma boa universidade e, depois, conseguir um bom emprego aqui mesmo em Foz.<br><br><strong>UNILA: 15 anos de consolida\u00e7\u00e3o<\/strong><br>Eu acompanhei, desde sempre, o desenvolvimento do PTI, per\u00edodo em que foram criadas diversas oportunidades de parcerias e de bons empregos. Foi, no entanto, em 2010, com a cria\u00e7\u00e3o da UNILA, que passei a vislumbrar uma oportunidade concreta de retornar a Foz do Igua\u00e7u e desenvolver sua carreira como pesquisador. Naquele momento, eu estava no in\u00edcio do doutorado na \u00e1rea de combust\u00e3o, participando de projetos de pesquisa e desenvolvimento de gasolina de F\u00f3rmula 1 e de querosene de avia\u00e7\u00e3o renov\u00e1vel \u2014 hoje conhecido como SAF (Sustainable Aviation Fuel) \u2014 em parceria com a Petrobras. O PTI n\u00e3o possu\u00eda linhas de pesquisa na \u00e1rea de combust\u00e3o, mas, em uma universidade com o porte e a miss\u00e3o da UNILA, isso seria poss\u00edvel. A partir disso, passei a planejar a minha trajet\u00f3ria profissional, identificando na UNILA os poss\u00edveis concursos para docente na minha \u00e1rea de forma\u00e7\u00e3o. Esse processo revelou-se profundamente recompensador: a perspectiva de, ap\u00f3s anos de estudo, retornar a Foz do Igua\u00e7u e retribuir, por meio do conhecimento, tudo o que a cidade me havia proporcionado.<br><br>O exemplo \u00e9 utilizado por estar claramente preservado na mem\u00f3ria do autor, mas h\u00e1 muitas outras trajet\u00f3rias e hist\u00f3rias de vida em que a UNILA teve papel preponderante no planejamento de carreiras e de projetos de vida como um todo. A Universidade Federal da Integra\u00e7\u00e3o Latino-Americana mudou Foz do Igua\u00e7u \u2014 e para melhor.<br><br>Ap\u00f3s muitas idas e vindas, inclusive tentativas de extin\u00e7\u00e3o da UNILA e de sua incorpora\u00e7\u00e3o a outra institui\u00e7\u00e3o\u2074, em 2023 o Governo Federal anunciou a retomada do campus da UNILA projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, hoje denominado Campus Arandu. Essa obra de grande relev\u00e2ncia arquitet\u00f4nica est\u00e1 sendo constru\u00edda a pleno vapor e ser\u00e1 um dos campi universit\u00e1rios mais belos e representativos do mundo. O projeto, concebido por Oscar Niemeyer, \u00e9 um presente para a cidade e representa a materializa\u00e7\u00e3o f\u00edsica da integra\u00e7\u00e3o latino-americana, a concretiza\u00e7\u00e3o do sonho do presidente Lula e de outros vision\u00e1rios de construir uma universidade, uma intelig\u00eancia genuinamente latino-americana. Os conterr\u00e2neos igua\u00e7uenses talvez ainda n\u00e3o tenham plena dimens\u00e3o disso, mas o Campus Arandu ir\u00e1 mudar profundamente a realidade de Foz do Igua\u00e7u. Esse \u00edcone arquitet\u00f4nico da integra\u00e7\u00e3o latino-americana ser\u00e1 um espa\u00e7o de trocas acad\u00eamicas, de estabelecimento de organismos multilaterais, de atra\u00e7\u00e3o de turistas e visitantes do mundo todo, al\u00e9m de estimular o desenvolvimento tecnol\u00f3gico e socioecon\u00f4mico da regi\u00e3o trinacional e de todo o Paran\u00e1.<br><br>O poder simb\u00f3lico e cultural de uma universidade com a magnitude da UNILA \u00e9 incalcul\u00e1vel. Somente quem tem o privil\u00e9gio de ministrar aulas e sentir na pele a gratid\u00e3o de alunos de toda a Am\u00e9rica Latina, muitas vezes fugindo de guerras e da total falta de perspectivas, sabe o que \u00e9 a esperan\u00e7a no olhar do jovem que, agora, passa a vislumbrar um futuro poss\u00edvel. Realmente, n\u00e3o tem pre\u00e7o. Tem-se hoje, em constru\u00e7\u00e3o, a estrutura f\u00edsica que ir\u00e1 receber essa intelig\u00eancia e se tornar s\u00edmbolo da integra\u00e7\u00e3o genuinamente latino-americana, consolidando a cidade como um farol do conhecimento, capaz de iluminar e guiar toda a Am\u00e9rica Latina e o Caribe rumo a um futuro mais promissor.<br><br>Nos \u00faltimos anos, ganhou grande destaque o termo resili\u00eancia, frequentemente utilizado no sentido de suportar os golpes da vida e seguir em frente. A ideia remete, inclusive, ao conhecido verso do samba-can\u00e7\u00e3o: \u201clevanta, sacode a poeira e d\u00e1 a volta por cima\u201d. O conceito, contudo, tem origem na mec\u00e2nica dos materiais, em que resili\u00eancia significa a capacidade de uma estrutura absorver impactos e energia sem se romper, mantendo sua integridade. Sob essa perspectiva, o termo revela-se particularmente adequado para descrever a trajet\u00f3ria do povo brasileiro. N\u00e3o por acaso, consolidou-se no imagin\u00e1rio nacional a express\u00e3o: \u201csou brasileiro e n\u00e3o desisto nunca\u201d. Trata-se de uma s\u00edntese simb\u00f3lica de uma sociedade historicamente submetida a adversidades, mas que insiste em preservar a altivez, a esperan\u00e7a e a capacidade de reconstru\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse ponto que se alcan\u00e7a o cerne deste texto. Na 100\u00aa Reuni\u00e3o Ordin\u00e1ria do Conselho Universit\u00e1rio da UNILA, foi aprovada a concess\u00e3o do t\u00edtulo de Doutor Honoris Causa ao presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. \u00c0 luz do que foi exposto, trata-se de uma homenagem mais do que justa. A trajet\u00f3ria pessoal e pol\u00edtica do presidente \u00e9 marcada pela resili\u00eancia \u2014 n\u00e3o apenas individual, mas coletiva \u2014, refletindo a experi\u00eancia hist\u00f3rica dos povos latino-americanos, que resistem, n\u00e3o se curvam e seguem adiante, mesmo diante das maiores adversidades.<br><br>A legitimidade do t\u00edtulo tamb\u00e9m se sustenta pelo papel decisivo do Governo Lula na cria\u00e7\u00e3o da Universidade Federal da Integra\u00e7\u00e3o Latino-Americana e na escolha de Foz do Igua\u00e7u como sua sede. Soma-se a isso, nos anos mais recentes, o empenho pol\u00edtico para a retomada e conclus\u00e3o das obras do Campus Arandu, etapa fundamental para a consolida\u00e7\u00e3o do projeto universit\u00e1rio e de seu significado estrat\u00e9gico para a integra\u00e7\u00e3o regional.<br><br>Eu fiquei particularmente feliz e muito satisfeito, primeiramente, por ser professor da UNILA neste momento hist\u00f3rico, mas principalmente por ser conselheiro e estar naquela 100\u00ba sess\u00e3o do CONSUN\/UNILA. Creio que poucos igua\u00e7uenses tenham a no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 participar de um conselho universit\u00e1rio de uma Universidade Federal como a UNILA. \u00c9 neste conselho que as ideias, proposi\u00e7\u00f5es, teorias e teses, bem como toda a gest\u00e3o universit\u00e1ria s\u00e3o debatidas, discutidas e colocadas \u00e0 prova. Os conselhos universit\u00e1rios podem, muitas vezes, ser mordazes pela caracter\u00edstica de debates francos e abertos. Mas, ao mesmo tempo, isto faz com que as melhores ideias e teses prosperem, consolidando a democracia universit\u00e1ria e fazendo com que todos possam ter a chance de ter as suas proposi\u00e7\u00f5es discutidas. E foi neste contexto, de plena democracia universit\u00e1ria, que foi aprovada a concess\u00e3o do t\u00edtulo de Doutor Honoris Causa ao Presidente Lula. Novamente, nada mais justo.<br><br>Hoje a nossa cidade j\u00e1 assimilou a UNILA. A presen\u00e7a de professores, alunos, pesquisadores em conselhos e \u00f3rg\u00e3os representativos populares da administra\u00e7\u00e3o municipal faz com que os debates necess\u00e1rios para a melhoria da nossa cidade sejam agora alimentados com conhecimento produzido aqui, por pessoas que moram no munic\u00edpio, que conhecem a sua realidade, que vivem os prazeres e dissabores da cidade. Os projetos de pesquisa, ensino e, principalmente, extens\u00e3o da UNILA, nas mais diversas \u00e1reas do conhecimento \u2014 como medicina, engenharia, sa\u00fade coletiva, educa\u00e7\u00e3o, geografia, hist\u00f3ria, biotecnologia, letras, media\u00e7\u00e3o cultural, rela\u00e7\u00f5es internacionais, m\u00fasica, antropologia, cinema, filosofia, arquitetura, urbanismo, ci\u00eancias e pol\u00edticas e muitas outras \u2014 levam conhecimento a milhares de igua\u00e7uenses. Essa realidade era totalmente diferente no in\u00edcio da UNILA, h\u00e1 15 anos.<br><br>\u00c9 por isso que a UNILA em si \u00e9 Honoris Causa em prol de Foz Igua\u00e7u e da regi\u00e3o trinacional: a UNILA trabalha em prol da causa do desenvolvimento cient\u00edfico, social, tecnol\u00f3gico e econ\u00f4mico com sustentabilidade para Foz do Igua\u00e7u e toda regi\u00e3o trinacional, Am\u00e9rica Latina e Caribe. Nada mais justo que a UNILA conceda o t\u00edtulo de doutor Honoris causa para quem sempre lutou pela causa da UNILA e pela nossa cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Por Ricardo Morel Hartmann<br>Professor da Universidade Federal da Integra\u00e7\u00e3o Latino-Americana (UNILA)<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<p>***Ricardo Morel Hartmann \u00e9 engenheiro mec\u00e2nico com mestrado e doutorado (2016) em combust\u00e3o pela UFSC e doutorado sandu\u00edche em combust\u00e3o no Karlsruher Institut f\u00fcr Technologie na Alemanha (2013-2015). \u00c9 professor de Engenharia de Energia na UNILA e, atualmente, ocupa o cargo de Secret\u00e1rio de Apoio Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico na Universidade. \u00c9 igua\u00e7uense e viveu a di\u00e1spora de jovens na d\u00e9cada de 1990, retornando \u00e0 Foz por meio de concurso p\u00fablico federal de magist\u00e9rio superior em 2019.<br><br>\u00b9Frigo, A., Preuss, L. T., Fronteiras e Direitos: a viol\u00eancia em Foz do Igua\u00e7u e a perspectiva dos Direitos Humanos, Revista (RE)DEFINI\u00c7\u00d5ES DAS FRONTEIRAS, Foz do Igua\u00e7u, v. 3, n. 12, p. v, 2025;<br>\u00b2<a href=\"https:\/\/legado.sindireceita.org.br\/legado\/152-legado-boletins-antigos\/134535-operacao-sucuri-prende-mais-dois-em-foz-do-iguacu\">https:\/\/legado.sindireceita.org.br\/legado\/152-legado-boletins-antigos\/134535-operacao-sucuri-prende-mais-dois-em-foz-do-iguacu<\/a>;<br>\u00b3Sotuyo, J. C., Caminhos da Inova\u00e7\u00e3o &#8211; Uma Viv\u00eancia Profissional, Editora Parque Itaipu, 1\u00aa Edi\u00e7\u00e3o, Foz do Igua\u00e7u, 2022.<br>\u2074<a href=\"https:\/\/www.congressoemfoco.com.br\/noticia\/34797\/deputado-propoe-extincao-da-unila-e-reducao-da-ufpr\">https:\/\/www.congressoemfoco.com.br\/noticia\/34797\/deputado-propoe-extincao-da-unila-e-reducao-da-ufpr<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foz do Igua\u00e7u \u00e9 uma cidade sui generis, seja pelo encantamento que oferece a turistas do mundo todo com as Cataratas do Igua\u00e7u, a Itaipu Binacional, o Marco das Tr\u00eas Fronteiras ou, ainda, com a natureza exuberante da \u201cCidade das \u00c1guas\u201d. A localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica privilegiada de Foz do Igua\u00e7u, contando com duas fronteiras no cora\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul, tamb\u00e9m ajuda a atrair turistas que buscam a facilidade de compras a pre\u00e7os mais baixos, no Paraguai e na Argentina. H\u00e1 muitas outras cidades no mundo que contam com atrativos naturais ou de compras, mas, com todos eles ao mesmo tempo, como ocorre em Foz do Igua\u00e7u, n\u00e3o h\u00e1 outra no mundo. \u00c9 impressionante que, dentro desta mesma cidade, haja duas cidades totalmente distintas: a cidade tur\u00edstica, que encanta pela tranquilidade, beleza e organiza\u00e7\u00e3o, e outra totalmente oposta, onde impera uma mistura entr\u00f3pica, a desorganiza\u00e7\u00e3o alucinante da Ponte da Amizade e de seus arredores, nas barrancas do rio Paran\u00e1. Esta cidade louca e desorganizada configurou-se, ao longo das d\u00e9cadas de 1970, 1980 e 1990, como rota do contrabando, do descaminho e do tr\u00e1fico de drogas e armas, atraindo compristas e aventureiros do Brasil inteiro \u2014 e trazendo a reboque a prolifera\u00e7\u00e3o de condutas delituosas e do crime organizado. Em paralelo ao in\u00edcio e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da Itaipu Binacional, muitas pessoas vieram para Foz do Igua\u00e7u em busca das oportunidades de uma fronteira praticamente intocada. Era comum os pioneiros contarem hist\u00f3rias de uma cidade que \u201cera s\u00f3 mato\u201d. As coisas foram acontecendo e as pessoas foram chegando; ao final dos anos 1990, Foz do Igua\u00e7u j\u00e1 era extremamente famosa no Brasil como o \u201cpara\u00edso da muamba\u201d, destino preferencial dos chamados \u201cexecutivos da fronteira\u201d. Nesse per\u00edodo, ao final da d\u00e9cada de 1990, Foz do Igua\u00e7u era uma cidade muito violenta, com \u00e9pocas do ano em que ocorriam entre cinco e dez assassinatos por fim de semana. Eram comuns chacinas e acertos de contas. O auge da taxa de mortalidade ocorreu em 2006, com aproximadamente 300 assassinatos no ano\u00b9, isso sem contar as ocorr\u00eancias clandestinas que n\u00e3o eram contabilizadas pela pol\u00edcia. A situa\u00e7\u00e3o, no final dos anos 1990 e no in\u00edcio da d\u00e9cada de 2000, era t\u00e3o cr\u00edtica que a equipe do presidente da Rep\u00fablica \u00e0 \u00e9poca chegou a aventar a ideia de construir um muro nas margens do rio Paran\u00e1 para tentar frear a criminalidade. Poderia at\u00e9 funcionar de certo modo, mas seria a coroa\u00e7\u00e3o do sectarismo, daquilo que \u00e9 exatamente o oposto da integra\u00e7\u00e3o latino-americana. Em termos de perspectiva de futuro para os jovens igua\u00e7uenses, o final dos anos 1990 tamb\u00e9m n\u00e3o era promissor. Havia poucas possibilidades: ou se trabalhava no Paraguai como vendedor ou mesmo como \u201claranja\u201d dos \u201cexecutivos da fronteira\u201d, ou, com sorte, conseguia-se algum emprego com carteira assinada em um hotel ou empresa do setor do turismo. Existia apenas uma universidade p\u00fablica, a UNIOESTE, que oferecia poucas vagas. Esse cen\u00e1rio consolidou o \u00eaxodo de jovens de Foz do Igua\u00e7u em busca de melhores oportunidades, o que foi o caso deste autor, que foi estudar em Santa Catarina, pois, \u00e0 \u00e9poca, n\u00e3o havia em Foz o curso de engenharia que buscava. Essa falta de oportunidades n\u00e3o era nada mais, nada menos, do que consequ\u00eancia direta da aus\u00eancia de cuidado e de investimentos por parte de Curitiba e de Bras\u00edlia. A ideia que predominava era a de que Foz, uma cidade joia do turismo, conseguiria, em tese, gerar os pr\u00f3prios recursos. Ao mesmo tempo, o problema do contrabando, do descaminho e da criminalidade seria resolvido com pol\u00edcia. Infelizmente, os investimentos em infraestrutura para o turismo nunca vinham, mas o policiamento sempre teve preponder\u00e2ncia. Esse tratamento, focado principalmente na repress\u00e3o e deixando em segundo plano os investimentos em educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e infraestrutura, consolidou a impress\u00e3o de que Foz era a \u201ccloaca\u201d do Paran\u00e1, sempre tratada como um problema distante dos grandes centros decis\u00f3rios \u2014 e recebendo apenas os restos dos investimentos relevantes realizados no Paran\u00e1 e no Brasil. A cidade passou a ser vista como um portal do contrabando do Paraguai, pa\u00eds associado \u00e0 falsifica\u00e7\u00e3o, \u00e0 malversa\u00e7\u00e3o e a s\u00edmbolos de coisas ruins. A integra\u00e7\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o conjunta de riqueza, pensar a integra\u00e7\u00e3o com intelig\u00eancia, nunca foi prioridade em Curitiba, muito menos em Bras\u00edlia. A d\u00e9cada da mudan\u00e7aAs coisas come\u00e7aram a mudar em Foz do Igua\u00e7u como consequ\u00eancia das transforma\u00e7\u00f5es que o Governo Federal passou a implementar a partir de 2003. Foram iniciadas pol\u00edticas de valoriza\u00e7\u00e3o e profissionaliza\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal, da Receita Federal, do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal e da Justi\u00e7a Federal. Para quem viveu em Foz do Igua\u00e7u nos anos 1990, o termo \u201cser Federal\u201d carregava significados bem conhecidos: eram frequentes os relatos de servidores federais que ostentavam um padr\u00e3o de vida muito acima dos proventos da carreira, circulando em carros importados e cercados por seguran\u00e7as armados. Esse quadro come\u00e7ou a se alterar a partir da Opera\u00e7\u00e3o Sucuri\u00b2, quando foram presos 22 policiais federais, tr\u00eas agentes da Receita Federal e dois agentes da PRF. Tratava-se de um marco importante no enfraquecimento do imp\u00e9rio do descaminho em Foz. No mesmo ano de 2003 iniciava-se a empreitada da inova\u00e7\u00e3o com a cria\u00e7\u00e3o do Parque Tecnol\u00f3gico de Itaipu, o ic\u00f4nico PTI, hoje Itaipu Parquetec. Tratava-se da concretiza\u00e7\u00e3o de um sonho acalentado por diversos professores e pesquisadores que, at\u00e9 ent\u00e3o, atuavam de forma isolada, cada um em sua pr\u00f3pria \u201craia\u201d de inova\u00e7\u00e3o. Esse movimento ganhou for\u00e7a quando o professor Juan Carlos Sotuyo obteve o apoio do ent\u00e3o DGB (Diretor-Geral Brasileiro) da Itaipu Binacional, o igua\u00e7uense Jorge Samek. A trajet\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o do PTI \u00e9 narrada pelo professor Sotuyo em livro lan\u00e7ado em 2022, no qual descreve, em detalhes, como o diretor Samek e o Governo Federal incentivaram e financiaram a instala\u00e7\u00e3o do PTI em Foz do Igua\u00e7u\u00b3. Estavam lan\u00e7adas as pedras fundamentais da mudan\u00e7a do perfil socioecon\u00f4mico de Foz do Igua\u00e7u: primeiro, combater a criminalidade e a vis\u00e3o simb\u00f3lica da impunidade, por meio da profissionaliza\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal (PF), Receita Federal (RF), Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal (PRF), Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal<\/p>\n","protected":false},"author":130,"featured_media":13323,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uag_custom_page_level_css":"","_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[124],"tags":[128],"class_list":["post-13328","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-conhecimento-pt","tag-ricardo-morel-hartmann"],"blocksy_meta":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.6 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Uma cidade com duas cidades e uma hist\u00f3ria a se contar - Portal Internacional: a internacionaliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o superior na Unila<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/internacional\/2026\/01\/28\/uma-cidade-com-duas-cidades-e-uma-historia-a-se-contar\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Uma cidade com duas cidades e uma hist\u00f3ria a se contar - Portal Internacional: a internacionaliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o superior na Unila\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Foz do Igua\u00e7u \u00e9 uma cidade sui generis, seja pelo encantamento que oferece a turistas do mundo todo com as Cataratas do Igua\u00e7u, a Itaipu Binacional, o Marco das Tr\u00eas Fronteiras ou, ainda, com a natureza exuberante da \u201cCidade das \u00c1guas\u201d. A localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica privilegiada de Foz do Igua\u00e7u, contando com duas fronteiras no cora\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul, tamb\u00e9m ajuda a atrair turistas que buscam a facilidade de compras a pre\u00e7os mais baixos, no Paraguai e na Argentina. H\u00e1 muitas outras cidades no mundo que contam com atrativos naturais ou de compras, mas, com todos eles ao mesmo tempo, como ocorre em Foz do Igua\u00e7u, n\u00e3o h\u00e1 outra no mundo. \u00c9 impressionante que, dentro desta mesma cidade, haja duas cidades totalmente distintas: a cidade tur\u00edstica, que encanta pela tranquilidade, beleza e organiza\u00e7\u00e3o, e outra totalmente oposta, onde impera uma mistura entr\u00f3pica, a desorganiza\u00e7\u00e3o alucinante da Ponte da Amizade e de seus arredores, nas barrancas do rio Paran\u00e1. Esta cidade louca e desorganizada configurou-se, ao longo das d\u00e9cadas de 1970, 1980 e 1990, como rota do contrabando, do descaminho e do tr\u00e1fico de drogas e armas, atraindo compristas e aventureiros do Brasil inteiro \u2014 e trazendo a reboque a prolifera\u00e7\u00e3o de condutas delituosas e do crime organizado. Em paralelo ao in\u00edcio e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da Itaipu Binacional, muitas pessoas vieram para Foz do Igua\u00e7u em busca das oportunidades de uma fronteira praticamente intocada. Era comum os pioneiros contarem hist\u00f3rias de uma cidade que \u201cera s\u00f3 mato\u201d. As coisas foram acontecendo e as pessoas foram chegando; ao final dos anos 1990, Foz do Igua\u00e7u j\u00e1 era extremamente famosa no Brasil como o \u201cpara\u00edso da muamba\u201d, destino preferencial dos chamados \u201cexecutivos da fronteira\u201d. Nesse per\u00edodo, ao final da d\u00e9cada de 1990, Foz do Igua\u00e7u era uma cidade muito violenta, com \u00e9pocas do ano em que ocorriam entre cinco e dez assassinatos por fim de semana. Eram comuns chacinas e acertos de contas. O auge da taxa de mortalidade ocorreu em 2006, com aproximadamente 300 assassinatos no ano\u00b9, isso sem contar as ocorr\u00eancias clandestinas que n\u00e3o eram contabilizadas pela pol\u00edcia. A situa\u00e7\u00e3o, no final dos anos 1990 e no in\u00edcio da d\u00e9cada de 2000, era t\u00e3o cr\u00edtica que a equipe do presidente da Rep\u00fablica \u00e0 \u00e9poca chegou a aventar a ideia de construir um muro nas margens do rio Paran\u00e1 para tentar frear a criminalidade. Poderia at\u00e9 funcionar de certo modo, mas seria a coroa\u00e7\u00e3o do sectarismo, daquilo que \u00e9 exatamente o oposto da integra\u00e7\u00e3o latino-americana. Em termos de perspectiva de futuro para os jovens igua\u00e7uenses, o final dos anos 1990 tamb\u00e9m n\u00e3o era promissor. Havia poucas possibilidades: ou se trabalhava no Paraguai como vendedor ou mesmo como \u201claranja\u201d dos \u201cexecutivos da fronteira\u201d, ou, com sorte, conseguia-se algum emprego com carteira assinada em um hotel ou empresa do setor do turismo. Existia apenas uma universidade p\u00fablica, a UNIOESTE, que oferecia poucas vagas. Esse cen\u00e1rio consolidou o \u00eaxodo de jovens de Foz do Igua\u00e7u em busca de melhores oportunidades, o que foi o caso deste autor, que foi estudar em Santa Catarina, pois, \u00e0 \u00e9poca, n\u00e3o havia em Foz o curso de engenharia que buscava. Essa falta de oportunidades n\u00e3o era nada mais, nada menos, do que consequ\u00eancia direta da aus\u00eancia de cuidado e de investimentos por parte de Curitiba e de Bras\u00edlia. A ideia que predominava era a de que Foz, uma cidade joia do turismo, conseguiria, em tese, gerar os pr\u00f3prios recursos. Ao mesmo tempo, o problema do contrabando, do descaminho e da criminalidade seria resolvido com pol\u00edcia. Infelizmente, os investimentos em infraestrutura para o turismo nunca vinham, mas o policiamento sempre teve preponder\u00e2ncia. Esse tratamento, focado principalmente na repress\u00e3o e deixando em segundo plano os investimentos em educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e infraestrutura, consolidou a impress\u00e3o de que Foz era a \u201ccloaca\u201d do Paran\u00e1, sempre tratada como um problema distante dos grandes centros decis\u00f3rios \u2014 e recebendo apenas os restos dos investimentos relevantes realizados no Paran\u00e1 e no Brasil. A cidade passou a ser vista como um portal do contrabando do Paraguai, pa\u00eds associado \u00e0 falsifica\u00e7\u00e3o, \u00e0 malversa\u00e7\u00e3o e a s\u00edmbolos de coisas ruins. A integra\u00e7\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o conjunta de riqueza, pensar a integra\u00e7\u00e3o com intelig\u00eancia, nunca foi prioridade em Curitiba, muito menos em Bras\u00edlia. A d\u00e9cada da mudan\u00e7aAs coisas come\u00e7aram a mudar em Foz do Igua\u00e7u como consequ\u00eancia das transforma\u00e7\u00f5es que o Governo Federal passou a implementar a partir de 2003. Foram iniciadas pol\u00edticas de valoriza\u00e7\u00e3o e profissionaliza\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal, da Receita Federal, do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal e da Justi\u00e7a Federal. Para quem viveu em Foz do Igua\u00e7u nos anos 1990, o termo \u201cser Federal\u201d carregava significados bem conhecidos: eram frequentes os relatos de servidores federais que ostentavam um padr\u00e3o de vida muito acima dos proventos da carreira, circulando em carros importados e cercados por seguran\u00e7as armados. Esse quadro come\u00e7ou a se alterar a partir da Opera\u00e7\u00e3o Sucuri\u00b2, quando foram presos 22 policiais federais, tr\u00eas agentes da Receita Federal e dois agentes da PRF. Tratava-se de um marco importante no enfraquecimento do imp\u00e9rio do descaminho em Foz. No mesmo ano de 2003 iniciava-se a empreitada da inova\u00e7\u00e3o com a cria\u00e7\u00e3o do Parque Tecnol\u00f3gico de Itaipu, o ic\u00f4nico PTI, hoje Itaipu Parquetec. Tratava-se da concretiza\u00e7\u00e3o de um sonho acalentado por diversos professores e pesquisadores que, at\u00e9 ent\u00e3o, atuavam de forma isolada, cada um em sua pr\u00f3pria \u201craia\u201d de inova\u00e7\u00e3o. Esse movimento ganhou for\u00e7a quando o professor Juan Carlos Sotuyo obteve o apoio do ent\u00e3o DGB (Diretor-Geral Brasileiro) da Itaipu Binacional, o igua\u00e7uense Jorge Samek. A trajet\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o do PTI \u00e9 narrada pelo professor Sotuyo em livro lan\u00e7ado em 2022, no qual descreve, em detalhes, como o diretor Samek e o Governo Federal incentivaram e financiaram a instala\u00e7\u00e3o do PTI em Foz do Igua\u00e7u\u00b3. 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A localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica privilegiada de Foz do Igua\u00e7u, contando com duas fronteiras no cora\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul, tamb\u00e9m ajuda a atrair turistas que buscam a facilidade de compras a pre\u00e7os mais baixos, no Paraguai e na Argentina. H\u00e1 muitas outras cidades no mundo que contam com atrativos naturais ou de compras, mas, com todos eles ao mesmo tempo, como ocorre em Foz do Igua\u00e7u, n\u00e3o h\u00e1 outra no mundo. \u00c9 impressionante que, dentro desta mesma cidade, haja duas cidades totalmente distintas: a cidade tur\u00edstica, que encanta pela tranquilidade, beleza e organiza\u00e7\u00e3o, e outra totalmente oposta, onde impera uma mistura entr\u00f3pica, a desorganiza\u00e7\u00e3o alucinante da Ponte da Amizade e de seus arredores, nas barrancas do rio Paran\u00e1. Esta cidade louca e desorganizada configurou-se, ao longo das d\u00e9cadas de 1970, 1980 e 1990, como rota do contrabando, do descaminho e do tr\u00e1fico de drogas e armas, atraindo compristas e aventureiros do Brasil inteiro \u2014 e trazendo a reboque a prolifera\u00e7\u00e3o de condutas delituosas e do crime organizado. Em paralelo ao in\u00edcio e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da Itaipu Binacional, muitas pessoas vieram para Foz do Igua\u00e7u em busca das oportunidades de uma fronteira praticamente intocada. Era comum os pioneiros contarem hist\u00f3rias de uma cidade que \u201cera s\u00f3 mato\u201d. As coisas foram acontecendo e as pessoas foram chegando; ao final dos anos 1990, Foz do Igua\u00e7u j\u00e1 era extremamente famosa no Brasil como o \u201cpara\u00edso da muamba\u201d, destino preferencial dos chamados \u201cexecutivos da fronteira\u201d. Nesse per\u00edodo, ao final da d\u00e9cada de 1990, Foz do Igua\u00e7u era uma cidade muito violenta, com \u00e9pocas do ano em que ocorriam entre cinco e dez assassinatos por fim de semana. Eram comuns chacinas e acertos de contas. O auge da taxa de mortalidade ocorreu em 2006, com aproximadamente 300 assassinatos no ano\u00b9, isso sem contar as ocorr\u00eancias clandestinas que n\u00e3o eram contabilizadas pela pol\u00edcia. A situa\u00e7\u00e3o, no final dos anos 1990 e no in\u00edcio da d\u00e9cada de 2000, era t\u00e3o cr\u00edtica que a equipe do presidente da Rep\u00fablica \u00e0 \u00e9poca chegou a aventar a ideia de construir um muro nas margens do rio Paran\u00e1 para tentar frear a criminalidade. Poderia at\u00e9 funcionar de certo modo, mas seria a coroa\u00e7\u00e3o do sectarismo, daquilo que \u00e9 exatamente o oposto da integra\u00e7\u00e3o latino-americana. Em termos de perspectiva de futuro para os jovens igua\u00e7uenses, o final dos anos 1990 tamb\u00e9m n\u00e3o era promissor. Havia poucas possibilidades: ou se trabalhava no Paraguai como vendedor ou mesmo como \u201claranja\u201d dos \u201cexecutivos da fronteira\u201d, ou, com sorte, conseguia-se algum emprego com carteira assinada em um hotel ou empresa do setor do turismo. Existia apenas uma universidade p\u00fablica, a UNIOESTE, que oferecia poucas vagas. Esse cen\u00e1rio consolidou o \u00eaxodo de jovens de Foz do Igua\u00e7u em busca de melhores oportunidades, o que foi o caso deste autor, que foi estudar em Santa Catarina, pois, \u00e0 \u00e9poca, n\u00e3o havia em Foz o curso de engenharia que buscava. Essa falta de oportunidades n\u00e3o era nada mais, nada menos, do que consequ\u00eancia direta da aus\u00eancia de cuidado e de investimentos por parte de Curitiba e de Bras\u00edlia. A ideia que predominava era a de que Foz, uma cidade joia do turismo, conseguiria, em tese, gerar os pr\u00f3prios recursos. Ao mesmo tempo, o problema do contrabando, do descaminho e da criminalidade seria resolvido com pol\u00edcia. Infelizmente, os investimentos em infraestrutura para o turismo nunca vinham, mas o policiamento sempre teve preponder\u00e2ncia. Esse tratamento, focado principalmente na repress\u00e3o e deixando em segundo plano os investimentos em educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e infraestrutura, consolidou a impress\u00e3o de que Foz era a \u201ccloaca\u201d do Paran\u00e1, sempre tratada como um problema distante dos grandes centros decis\u00f3rios \u2014 e recebendo apenas os restos dos investimentos relevantes realizados no Paran\u00e1 e no Brasil. A cidade passou a ser vista como um portal do contrabando do Paraguai, pa\u00eds associado \u00e0 falsifica\u00e7\u00e3o, \u00e0 malversa\u00e7\u00e3o e a s\u00edmbolos de coisas ruins. A integra\u00e7\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o conjunta de riqueza, pensar a integra\u00e7\u00e3o com intelig\u00eancia, nunca foi prioridade em Curitiba, muito menos em Bras\u00edlia. A d\u00e9cada da mudan\u00e7aAs coisas come\u00e7aram a mudar em Foz do Igua\u00e7u como consequ\u00eancia das transforma\u00e7\u00f5es que o Governo Federal passou a implementar a partir de 2003. Foram iniciadas pol\u00edticas de valoriza\u00e7\u00e3o e profissionaliza\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal, da Receita Federal, do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal e da Justi\u00e7a Federal. Para quem viveu em Foz do Igua\u00e7u nos anos 1990, o termo \u201cser Federal\u201d carregava significados bem conhecidos: eram frequentes os relatos de servidores federais que ostentavam um padr\u00e3o de vida muito acima dos proventos da carreira, circulando em carros importados e cercados por seguran\u00e7as armados. Esse quadro come\u00e7ou a se alterar a partir da Opera\u00e7\u00e3o Sucuri\u00b2, quando foram presos 22 policiais federais, tr\u00eas agentes da Receita Federal e dois agentes da PRF. Tratava-se de um marco importante no enfraquecimento do imp\u00e9rio do descaminho em Foz. No mesmo ano de 2003 iniciava-se a empreitada da inova\u00e7\u00e3o com a cria\u00e7\u00e3o do Parque Tecnol\u00f3gico de Itaipu, o ic\u00f4nico PTI, hoje Itaipu Parquetec. Tratava-se da concretiza\u00e7\u00e3o de um sonho acalentado por diversos professores e pesquisadores que, at\u00e9 ent\u00e3o, atuavam de forma isolada, cada um em sua pr\u00f3pria \u201craia\u201d de inova\u00e7\u00e3o. Esse movimento ganhou for\u00e7a quando o professor Juan Carlos Sotuyo obteve o apoio do ent\u00e3o DGB (Diretor-Geral Brasileiro) da Itaipu Binacional, o igua\u00e7uense Jorge Samek. A trajet\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o do PTI \u00e9 narrada pelo professor Sotuyo em livro lan\u00e7ado em 2022, no qual descreve, em detalhes, como o diretor Samek e o Governo Federal incentivaram e financiaram a instala\u00e7\u00e3o do PTI em Foz do Igua\u00e7u\u00b3. Estavam lan\u00e7adas as pedras fundamentais da mudan\u00e7a do perfil socioecon\u00f4mico de Foz do Igua\u00e7u: primeiro, combater a criminalidade e a vis\u00e3o simb\u00f3lica da impunidade, por meio da profissionaliza\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal (PF), Receita Federal (RF), Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal (PRF), Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal","og_url":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/internacional\/2026\/01\/28\/uma-cidade-com-duas-cidades-e-uma-historia-a-se-contar\/","og_site_name":"Portal Internacional: a internacionaliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o superior na Unila","article_published_time":"2026-01-28T14:11:39+00:00","article_modified_time":"2026-02-05T14:33:44+00:00","og_image":[{"width":799,"height":533,"url":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/internacional\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2026\/01\/Uma-cidade-com-duas-cidades-e-uma-historia-a-se-contar.png","type":"image\/png"}],"author":"editorial","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"editorial","Est. tempo de leitura":"13 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/internacional\/2026\/01\/28\/uma-cidade-com-duas-cidades-e-uma-historia-a-se-contar\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/internacional\/2026\/01\/28\/uma-cidade-com-duas-cidades-e-uma-historia-a-se-contar\/"},"author":{"name":"editorial","@id":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/internacional\/#\/schema\/person\/878ec25d928b80883702c7a57253cf1e"},"headline":"Uma cidade com duas cidades e uma hist\u00f3ria a se contar","datePublished":"2026-01-28T14:11:39+00:00","dateModified":"2026-02-05T14:33:44+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/internacional\/2026\/01\/28\/uma-cidade-com-duas-cidades-e-uma-historia-a-se-contar\/"},"wordCount":2655,"image":{"@id":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/internacional\/2026\/01\/28\/uma-cidade-com-duas-cidades-e-uma-historia-a-se-contar\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/internacional\/wp-content\/uploads\/sites\/48\/2026\/01\/Uma-cidade-com-duas-cidades-e-uma-historia-a-se-contar.png","keywords":["Ricardo Morel Hartmann"],"articleSection":["Conhecimento"],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/internacional\/2026\/01\/28\/uma-cidade-com-duas-cidades-e-uma-historia-a-se-contar\/","url":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/internacional\/2026\/01\/28\/uma-cidade-com-duas-cidades-e-uma-historia-a-se-contar\/","name":"Uma cidade com duas cidades e uma hist\u00f3ria a se contar - 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