{"id":943,"date":"2024-04-01T14:53:39","date_gmt":"2024-04-01T17:53:39","guid":{"rendered":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/?p=943"},"modified":"2024-04-01T15:21:13","modified_gmt":"2024-04-01T18:21:13","slug":"a-dimensao-psiquica-do-fenomeno-migratorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/2024\/04\/01\/a-dimensao-psiquica-do-fenomeno-migratorio\/","title":{"rendered":"A dimens\u00e3o ps\u00edquica do fen\u00f4meno migrat\u00f3rio"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"943\" class=\"elementor elementor-943\">\n\t\t\t\t<div class=\"has_eae_slider elementor-element elementor-element-2ddb0c08 e-flex e-con-boxed wpr-particle-no wpr-jarallax-no wpr-parallax-no wpr-sticky-section-no wpr-equal-height-no e-con e-parent\" data-eae-slider=\"13619\" data-id=\"2ddb0c08\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-13ad4b52 elementor-drop-cap-yes elementor-drop-cap-view-default elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"13ad4b52\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-settings=\"{&quot;drop_cap&quot;:&quot;yes&quot;}\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p><div class=\"wp-block-image\"><\/p>\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"725\" height=\"1000\" class=\"wp-image-945 aligncenter\" style=\"width: 179px;height: auto\" src=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2024\/03\/1000035771.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2024\/03\/1000035771.jpg 725w, https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2024\/03\/1000035771-218x300.jpg 218w, https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2024\/03\/1000035771-205x283.jpg 205w, https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2024\/03\/1000035771-480x662.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 725px) 100vw, 725px\" \/><\/figure>\n<p><\/div><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A migra\u00e7\u00e3o tende a ser considerada um fen\u00f4meno multicausal. Isso quer dizer que fatores econ\u00f4micos, sociais, pol\u00edticos e culturais influencia<span style=\"color: var( --e-global-color-text );font-family: var( --e-global-typography-text-font-family ), Sans-serif;text-align: var(--text-align);font-size: 1rem\">m os processos migrat\u00f3rios, condicionando sua manifesta\u00e7\u00e3o. H\u00e1 quem diga que fatores neurobiol\u00f3gicos tamb\u00e9m participam das motiva\u00e7\u00f5es para migrar, pois estudos j\u00e1 indicaram uma presen\u00e7a mais significativa da dopamina, neurotransmissor ligado \u00e0 motiva\u00e7\u00e3o, em pessoas que migram. O livro \u201cQuem da p\u00e1tria sai a si mesmo escapa? &#8211; um estudo psicanal\u00edtico sobre a migra\u00e7\u00e3o\u201d de Daniela Meirelles Escobari (Editora Escuta, 2009) foca nas motiva\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas que impulsionam a migra\u00e7\u00e3o. Ao endere\u00e7ar a dimens\u00e3o ps\u00edquica do fen\u00f4meno, a autora n\u00e3o pretende realizar a defesa de um determinismo ps\u00edquico no sentido de que a causa ps\u00edquica seria preponderante \u00e0s demais, mas de um recorte a partir da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Tampouco, se trata de reduzir as in\u00fameras possibilidades de causalidade ps\u00edquica a apenas uma, mas de explor\u00e1-las a partir do universo de sentido produzido pelos sujeitos que migram em sua experi\u00eancia anal\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O sujeito que decide migrar se encontra diante de um impasse ps\u00edquico cuja resolu\u00e7\u00e3o busca no deslocamento de um pa\u00eds para outro, tendo uma \u201ccrise ps\u00edquica\u201d como instauradora do processo. Do ponto de vista da psican\u00e1lise, o corpo materno (Das Ding), em sua pr\u00e1tica de cuidado cotidiano, exerce uma atra\u00e7\u00e3o poderosa sobre a crian\u00e7a que, em seu devir como sujeito, precisa se separar dele em certo momento de sua vida. No universo da pesquisa realizada pela autora, a sa\u00edda de um pa\u00eds para outro representa a reatualiza\u00e7\u00e3o da problem\u00e1tica do afastamento do corpo materno. Uma das pacientes narradas por Escobari fala que ser estrangeira \u00e9 ser desconhecida, n\u00e3o ter tantas cobran\u00e7as. Sair de um pa\u00eds para outro representa sair do universo de sentido libidinalmente investido pelo corpo materno que, \u00e0s vezes, pode se tornar sufocante, para experienciar outros universos e, finalmente, pela separa\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica realizar a separa\u00e7\u00e3o ps\u00edquica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A explora\u00e7\u00e3o que a autora faz da no\u00e7\u00e3o de \u201cobjeu\u201d de Pierre F\u00e9dida (1978) \u00e9 interessante. Na palavra \u201cobjeu\u201d \u00e9 poss\u00edvel ouvir as seguintes palavras: objet (objeto), jeu (jogo) e jet (jogar). Quando Freud (1969b) descreve seu neto lan\u00e7ando o carretel e pronunciando a express\u00e3o \u201cfort-da\u201d, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 interpretada como um momento em que a crian\u00e7a est\u00e1 aprendendo a lidar com a aus\u00eancia\/presen\u00e7a da m\u00e3e. Fundamental na constitui\u00e7\u00e3o ps\u00edquica da crian\u00e7a, o jogo \u201cfort-da\u201d sup\u00f5e certa destrui\u00e7\u00e3o, no n\u00edvel do fantasma, do objeto materno para que a possibilidade de uma simboliza\u00e7\u00e3o criativa possa emergir. Lan\u00e7ar o carretel para longe \u00e9 uma forma de encontrar outra forma de lidar com o objeto materno, pois abre o psiquismo \u00e0 representa\u00e7\u00e3o da aus\u00eancia pela via da alucina\u00e7\u00e3o negativa. O desejo surge dessa capacidade simb\u00f3lica de prescindir do objeto materno para que sua aus\u00eancia possa ser ocupada por outros objetos substitutivos. Sujeitos em processo de migra\u00e7\u00e3o est\u00e3o, inconscientemente, em busca pela ruptura com a coisa materna para que a produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lico-desejante seja poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Se a hip\u00f3tese segundo a qual o que impulsiona o sujeito a migrar \u00e9 a necessidade de separa\u00e7\u00e3o do corpo materno estiver correta, ent\u00e3o a pesquisa sobre a quest\u00e3o do luto migrat\u00f3rio, tema bastante investigado nos estudos de migra\u00e7\u00e3o, faz todo sentido. Freud (1969a) postulou que o luto e a melancolia se igualam porque ambas s\u00e3o uma rea\u00e7\u00e3o a uma perda de objeto. No entanto, o que diferencia o luto da melancolia \u00e9 que esta \u00faltima implica a reten\u00e7\u00e3o do objeto perdido na exterioridade no interior do psiquismo enquanto o primeiro implica um desligamento libidinal do objeto perdido e o investimento em novos objetos. A depress\u00e3o, considerada um quadro cl\u00ednico bastante frequente entre pessoas que migram, revela os impasses dessa perda. Numa chave de leitura lacaniana (LACAN, 2007), a migra\u00e7\u00e3o seria um esp\u00e9cie de sinthome, uma escrita que busca ser a solu\u00e7\u00e3o para a dif\u00edcil tarefa de encontrar um suporte ao real do corpo materno. Ir para um novo pa\u00eds em que a l\u00edngua falada n\u00e3o \u00e9 a materna, a l\u00edngua do gozo recheada de sensorialidade e experi\u00eancias de prazer e desprazer, lalangue, como escreve Lacan, \u00e9 se afastar do corpo materno que, como o canto da sereia, seduz, mas tamb\u00e9m pode levar \u00e0 morte do desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">F\u00c9DIDA, P. \u201cL&#8217;objeu: objet, jeu et enfance\u201d. In: L&#8217;absence. Paris: Gallimard, 1978.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">FREUD, S. \u201cLuto e melancolia\u201d. In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969a. v. XIV.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">FREUD, S. Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer. In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969b. v. XVIII<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">LACAN, J. O Semin\u00e1rio, Livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"has-text-align-right\">Por Marcos de Jesus Oliveira (01.04.2024)<\/p>\n<p><\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<a class=\"synved-social-button synved-social-button-follow synved-social-size-48 synved-social-resolution-single synved-social-provider-facebook nolightbox\" data-provider=\"facebook\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\" title=\"Follow us on Facebook\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/facebook\" style=\"font-size: 0px;width:48px;height:48px;margin:0;margin-bottom:5px;margin-right:5px\"><img decoding=\"async\" alt=\"Facebook\" title=\"Follow us on Facebook\" class=\"synved-share-image synved-social-image synved-social-image-follow\" width=\"48\" height=\"48\" style=\"display: inline;width:48px;height:48px;margin: 0;padding: 0;border: none;box-shadow: none\" src=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/plugins\/social-media-feather\/synved-social\/image\/social\/regular\/96x96\/facebook.png\" \/><\/a><a class=\"synved-social-button synved-social-button-follow synved-social-size-48 synved-social-resolution-single synved-social-provider-twitter nolightbox\" data-provider=\"twitter\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\" title=\"Follow us on Twitter\" href=\"https:\/\/twitter.com\/twitter\" style=\"font-size: 0px;width:48px;height:48px;margin:0;margin-bottom:5px;margin-right:5px\"><img decoding=\"async\" alt=\"twitter\" title=\"Follow us on Twitter\" class=\"synved-share-image synved-social-image synved-social-image-follow\" width=\"48\" height=\"48\" style=\"display: inline;width:48px;height:48px;margin: 0;padding: 0;border: none;box-shadow: none\" src=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/plugins\/social-media-feather\/synved-social\/image\/social\/regular\/96x96\/twitter.png\" \/><\/a><a class=\"synved-social-button synved-social-button-follow synved-social-size-48 synved-social-resolution-single synved-social-provider-linkedin nolightbox\" data-provider=\"linkedin\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\" title=\"Find us on Linkedin\" href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/in\/yourid\" style=\"font-size: 0px;width:48px;height:48px;margin:0;margin-bottom:5px;margin-right:5px\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"linkedin\" title=\"Find us on Linkedin\" class=\"synved-share-image synved-social-image synved-social-image-follow\" width=\"48\" height=\"48\" style=\"display: inline;width:48px;height:48px;margin: 0;padding: 0;border: none;box-shadow: none\" src=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/plugins\/social-media-feather\/synved-social\/image\/social\/regular\/96x96\/linkedin.png\" \/><\/a><a class=\"synved-social-button synved-social-button-follow synved-social-size-48 synved-social-resolution-single synved-social-provider-instagram nolightbox\" data-provider=\"instagram\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\" title=\"Check out our instagram feed\" href=\"https:\/\/instagram.com\/myusername\" style=\"font-size: 0px;width:48px;height:48px;margin:0;margin-bottom:5px;margin-right:5px\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"instagram\" title=\"Check out our instagram feed\" class=\"synved-share-image synved-social-image synved-social-image-follow\" width=\"48\" height=\"48\" style=\"display: inline;width:48px;height:48px;margin: 0;padding: 0;border: none;box-shadow: none\" src=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/plugins\/social-media-feather\/synved-social\/image\/social\/regular\/96x96\/instagram.png\" \/><\/a><a class=\"synved-social-button synved-social-button-follow synved-social-size-48 synved-social-resolution-single synved-social-provider-flickr nolightbox\" data-provider=\"flickr\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\" title=\"Check out our flickr feed\" href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/myusername\/\" style=\"font-size: 0px;width:48px;height:48px;margin:0;margin-bottom:5px;margin-right:5px\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"flickr\" title=\"Check out our flickr feed\" class=\"synved-share-image synved-social-image synved-social-image-follow\" width=\"48\" height=\"48\" style=\"display: inline;width:48px;height:48px;margin: 0;padding: 0;border: none;box-shadow: none\" src=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/plugins\/social-media-feather\/synved-social\/image\/social\/regular\/96x96\/flickr.png\" \/><\/a><a class=\"synved-social-button synved-social-button-follow synved-social-size-48 synved-social-resolution-single synved-social-provider-foursquare nolightbox\" data-provider=\"foursquare\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\" title=\"Check out our foursquare feed\" href=\"https:\/\/foursquare.com\/myusername\" style=\"font-size: 0px;width:48px;height:48px;margin:0;margin-bottom:5px;margin-right:5px\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"foursquare\" title=\"Check out our foursquare feed\" class=\"synved-share-image synved-social-image synved-social-image-follow\" width=\"48\" height=\"48\" style=\"display: inline;width:48px;height:48px;margin: 0;padding: 0;border: none;box-shadow: none\" src=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/plugins\/social-media-feather\/synved-social\/image\/social\/regular\/96x96\/foursquare.png\" \/><\/a><a class=\"synved-social-button synved-social-button-follow synved-social-size-48 synved-social-resolution-single synved-social-provider-mail nolightbox\" data-provider=\"mail\" rel=\"nofollow\" title=\"Contact Us\" href=\"mailto:mail@example.com?subject=Contact%20Request\" style=\"font-size: 0px;width:48px;height:48px;margin:0;margin-bottom:5px\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"mail\" title=\"Contact Us\" class=\"synved-share-image synved-social-image synved-social-image-follow\" width=\"48\" height=\"48\" style=\"display: inline;width:48px;height:48px;margin: 0;padding: 0;border: none;box-shadow: none\" src=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/plugins\/social-media-feather\/synved-social\/image\/social\/regular\/96x96\/mail.png\" \/><\/a>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A migra\u00e7\u00e3o tende a ser considerada um fen\u00f4meno multicausal. Isso quer dizer que fatores econ\u00f4micos, sociais, pol\u00edticos e culturais influenciam os processos migrat\u00f3rios, condicionando sua manifesta\u00e7\u00e3o. H\u00e1 quem diga que fatores neurobiol\u00f3gicos tamb\u00e9m participam das motiva\u00e7\u00f5es para migrar, pois estudos j\u00e1 indicaram uma presen\u00e7a mais significativa da dopamina, neurotransmissor ligado \u00e0 motiva\u00e7\u00e3o, em pessoas que migram. O livro \u201cQuem da p\u00e1tria sai a si mesmo escapa? &#8211; um estudo psicanal\u00edtico sobre a migra\u00e7\u00e3o\u201d de Daniela Meirelles Escobari (Editora Escuta, 2009) foca nas motiva\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas que impulsionam a migra\u00e7\u00e3o. Ao endere\u00e7ar a dimens\u00e3o ps\u00edquica do fen\u00f4meno, a autora n\u00e3o pretende realizar a defesa de um determinismo ps\u00edquico no sentido de que a causa ps\u00edquica seria preponderante \u00e0s demais, mas de um recorte a partir da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Tampouco, se trata de reduzir as in\u00fameras possibilidades de causalidade ps\u00edquica a apenas uma, mas de explor\u00e1-las a partir do universo de sentido produzido pelos sujeitos que migram em sua experi\u00eancia anal\u00edtica. O sujeito que decide migrar se encontra diante de um impasse ps\u00edquico cuja resolu\u00e7\u00e3o busca no deslocamento de um pa\u00eds para outro, tendo uma \u201ccrise ps\u00edquica\u201d como instauradora do processo. Do ponto de vista da psican\u00e1lise, o corpo materno (Das Ding), em sua pr\u00e1tica de cuidado cotidiano, exerce uma atra\u00e7\u00e3o poderosa sobre a crian\u00e7a que, em seu devir como sujeito, precisa se separar dele em certo momento de sua vida. No universo da pesquisa realizada pela autora, a sa\u00edda de um pa\u00eds para outro representa a reatualiza\u00e7\u00e3o da problem\u00e1tica do afastamento do corpo materno. Uma das pacientes narradas por Escobari fala que ser estrangeira \u00e9 ser desconhecida, n\u00e3o ter tantas cobran\u00e7as. Sair de um pa\u00eds para outro representa sair do universo de sentido libidinalmente investido pelo corpo materno que, \u00e0s vezes, pode se tornar sufocante, para experienciar outros universos e, finalmente, pela separa\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica realizar a separa\u00e7\u00e3o ps\u00edquica. A explora\u00e7\u00e3o que a autora faz da no\u00e7\u00e3o de \u201cobjeu\u201d de Pierre F\u00e9dida (1978) \u00e9 interessante. Na palavra \u201cobjeu\u201d \u00e9 poss\u00edvel ouvir as seguintes palavras: objet (objeto), jeu (jogo) e jet (jogar). Quando Freud (1969b) descreve seu neto lan\u00e7ando o carretel e pronunciando a express\u00e3o \u201cfort-da\u201d, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 interpretada como um momento em que a crian\u00e7a est\u00e1 aprendendo a lidar com a aus\u00eancia\/presen\u00e7a da m\u00e3e. Fundamental na constitui\u00e7\u00e3o ps\u00edquica da crian\u00e7a, o jogo \u201cfort-da\u201d sup\u00f5e certa destrui\u00e7\u00e3o, no n\u00edvel do fantasma, do objeto materno para que a possibilidade de uma simboliza\u00e7\u00e3o criativa possa emergir. Lan\u00e7ar o carretel para longe \u00e9 uma forma de encontrar outra forma de lidar com o objeto materno, pois abre o psiquismo \u00e0 representa\u00e7\u00e3o da aus\u00eancia pela via da alucina\u00e7\u00e3o negativa. O desejo surge dessa capacidade simb\u00f3lica de prescindir do objeto materno para que sua aus\u00eancia possa ser ocupada por outros objetos substitutivos. Sujeitos em processo de migra\u00e7\u00e3o est\u00e3o, inconscientemente, em busca pela ruptura com a coisa materna para que a produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lico-desejante seja poss\u00edvel. Se a hip\u00f3tese segundo a qual o que impulsiona o sujeito a migrar \u00e9 a necessidade de separa\u00e7\u00e3o do corpo materno estiver correta, ent\u00e3o a pesquisa sobre a quest\u00e3o do luto migrat\u00f3rio, tema bastante investigado nos estudos de migra\u00e7\u00e3o, faz todo sentido. Freud (1969a) postulou que o luto e a melancolia se igualam porque ambas s\u00e3o uma rea\u00e7\u00e3o a uma perda de objeto. No entanto, o que diferencia o luto da melancolia \u00e9 que esta \u00faltima implica a reten\u00e7\u00e3o do objeto perdido na exterioridade no interior do psiquismo enquanto o primeiro implica um desligamento libidinal do objeto perdido e o investimento em novos objetos. A depress\u00e3o, considerada um quadro cl\u00ednico bastante frequente entre pessoas que migram, revela os impasses dessa perda. Numa chave de leitura lacaniana (LACAN, 2007), a migra\u00e7\u00e3o seria um esp\u00e9cie de sinthome, uma escrita que busca ser a solu\u00e7\u00e3o para a dif\u00edcil tarefa de encontrar um suporte ao real do corpo materno. Ir para um novo pa\u00eds em que a l\u00edngua falada n\u00e3o \u00e9 a materna, a l\u00edngua do gozo recheada de sensorialidade e experi\u00eancias de prazer e desprazer, lalangue, como escreve Lacan, \u00e9 se afastar do corpo materno que, como o canto da sereia, seduz, mas tamb\u00e9m pode levar \u00e0 morte do desejo. Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas: F\u00c9DIDA, P. \u201cL&#8217;objeu: objet, jeu et enfance\u201d. In: L&#8217;absence. Paris: Gallimard, 1978. FREUD, S. \u201cLuto e melancolia\u201d. In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969a. v. XIV. FREUD, S. Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer. In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969b. v. XVIII LACAN, J. O Semin\u00e1rio, Livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. Por Marcos de Jesus Oliveira (01.04.2024)<\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uag_custom_page_level_css":"","_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-943","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenha"],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"htmega_size_585x295":false,"htmega_size_1170x536":false,"htmega_size_396x360":false,"tainacan-small":false,"tainacan-medium":false,"tainacan-medium-full":false,"tainacan-large-full":false,"button-2-featured":false},"uagb_author_info":{"display_name":"marcos.jesus","author_link":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/author\/interclinica\/"},"uagb_comment_info":2,"uagb_excerpt":"A migra\u00e7\u00e3o tende a ser considerada um fen\u00f4meno multicausal. Isso quer dizer que fatores econ\u00f4micos, sociais, pol\u00edticos e culturais influenciam os processos migrat\u00f3rios, condicionando sua manifesta\u00e7\u00e3o. H\u00e1 quem diga que fatores neurobiol\u00f3gicos tamb\u00e9m participam das motiva\u00e7\u00f5es para migrar, pois estudos j\u00e1 indicaram uma presen\u00e7a mais significativa da dopamina, neurotransmissor ligado \u00e0 motiva\u00e7\u00e3o, em pessoas que&hellip;","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/943","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=943"}],"version-history":[{"count":17,"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/943\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":985,"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/943\/revisions\/985"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=943"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=943"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=943"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}