{"id":742,"date":"2024-02-13T11:24:05","date_gmt":"2024-02-13T14:24:05","guid":{"rendered":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/?p=742"},"modified":"2024-02-13T11:56:31","modified_gmt":"2024-02-13T14:56:31","slug":"por-uma-psicologia-indigena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/2024\/02\/13\/por-uma-psicologia-indigena\/","title":{"rendered":"Por uma psicologia ind\u00edgena"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"742\" class=\"elementor elementor-742\">\n\t\t\t\t<div class=\"has_eae_slider elementor-element elementor-element-6637f155 e-flex e-con-boxed wpr-particle-no wpr-jarallax-no wpr-parallax-no wpr-sticky-section-no wpr-equal-height-no e-con e-parent\" data-eae-slider=\"5281\" data-id=\"6637f155\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-5b310bd4 elementor-drop-cap-yes elementor-drop-cap-view-default elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"5b310bd4\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-settings=\"{&quot;drop_cap&quot;:&quot;yes&quot;}\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"664\" height=\"1000\" class=\"wp-image-744 alignright\" style=\"width: 226px;height: auto\" src=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2024\/02\/1000027976.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2024\/02\/1000027976.jpg 664w, https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2024\/02\/1000027976-199x300.jpg 199w, https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2024\/02\/1000027976-205x309.jpg 205w, https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2024\/02\/1000027976-480x723.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 664px) 100vw, 664px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Como nas outras resenhas, n\u00e3o se pretende aqui resumir uma obra t\u00e3o densa e interessante como \u00e9 \u201cDialogical multiplication: principles for an indigenous psychology\u201d de Danilo Silva Guimar\u00e3es. Trata-se antes de apresentar uma breve leitura a partir daquilo que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o como forma de despertar o interesse do leitor pela obra. Um dos aspectos mais interessantes da discuss\u00e3o proposta pelo autor que \u00e9 ind\u00edgena e professor no Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo se refere a sua cr\u00edtica \u00e0s pretens\u00f5es de universalidade da psicologia moderna e de como a psicologia ind\u00edgena vai produzindo um conhecimento nas bordas dos saberes psicol\u00f3gicos hegem\u00f4nicos. Isso porque, de modo geral, a psicologia tem elidido a dimens\u00e3o cultural de suas indaga\u00e7\u00f5es te\u00f3rico-conceituais com a ilus\u00e3o de que assim conseguir\u00e1 produzir um conhecimento que transcende o contexto onde \u00e9 produzido, sendo v\u00e1lido em qualquer tempo ou lugar.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Toda psicologia \u00e9 ind\u00edgena, defende Guimar\u00e3es. Afinal, ind\u00edgena se refere \u00e0quelas pessoas que s\u00e3o origin\u00e1rias de um determinado territ\u00f3rio. Toda psicologia trar\u00e1 as marcas do lugar em que foi forjada. Tal perspectiva tensiona o eurocentrismo que faz crer que o conhecimento psicol\u00f3gico moderno transcende as coordenadas do tempo e do espa\u00e7o em que foi teorizado. \u00c9 comum se usar o termo \u201cetnopsicologia\u201d para se referir aos povos n\u00e3o-ocidentais como se os ocidentais tamb\u00e9m n\u00e3o fossem um \u201cetno\u201d, um grupo culturalmente espec\u00edfico. O \u201cetno\u201d s\u00e3o sempre os outros tratados como o \u201cparticular\u201d. A psicologia ocidental tamb\u00e9m \u00e9 uma etnopsicologia porque suas elabora\u00e7\u00f5es te\u00f3rico-conceituais nasceram para dar conta da no\u00e7\u00e3o de pessoa pr\u00f3pria a seu contexto hist\u00f3rico-cultural. E, conforme j\u00e1 demonstrou extensivamente a antropologia, a no\u00e7\u00e3o de pessoa varia de cultura para cultura.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">A psicologia cultural est\u00e1 interessada em entender como os processos de media\u00e7\u00e3o semi\u00f3tico-cultural estabelecem refer\u00eancias pelas quais o sujeito se relaciona consigo mesmo, com o outro e com o mundo. Se, em um determinado grupo social, o que comumente chamamos de natureza \u00e9 tido como tendo alma, consci\u00eancia e\/ou vontade e, para outro grupo social, essa \u201cmesma natureza\u201d \u00e9 tida como um mero recurso a servi\u00e7o da satisfa\u00e7\u00e3o de suas necessidades, isso acontece porque as refer\u00eancias semi\u00f3tico-culturais s\u00e3o diferentes para os dois grupos sociais em quest\u00e3o. Assim, o psic\u00f3logo n\u00e3o pode prescindir da compreens\u00e3o de como determinado sujeito medeia sua rela\u00e7\u00e3o consigo mesmo, com o outro e com o mundo em seus processos de interven\u00e7\u00e3o sob o risco de que, se n\u00e3o o fizer, tender\u00e1 a ser etnoc\u00eantrico, isto \u00e9, impor seus pr\u00f3prios padr\u00f5es referenciais a algu\u00e9m que n\u00e3o os compartilha.O di\u00e1logo entre culturas n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil ou simples como sup\u00f4s uma larga tradi\u00e7\u00e3o do pensamento ocidental que creu poder objetivar o outro. O di\u00e1logo inter\u00e9tnico envolve equ\u00edvocos, tentativas falhas de tradu\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de rela\u00e7\u00f5es de ambival\u00eancia em decorr\u00eancia do choque cultural causado pelo encontro com a alteridade. Nesse sentido, a tarefa fundamental do psic\u00f3logo \u00e9 estar atento \u00e0 parcialidade das perspectivas, de maneira a n\u00e3o colonizar o outro com suas pretens\u00f5es de verdade. O outro \u00e9, na tradi\u00e7\u00e3o da \u00e9tica de Emmanuel L\u00e9vinas, o que impede que o eu seja id\u00eantico a si mesmo, tendo por consequ\u00eancia a impossibilidade de um saber total ou absoluto. O desafio \u00e9 atravessar os \u201cmuros semi\u00f3ticos\u201d (semiotic walls) pelos quais uma cultura produz ativamente a incapacidade de dialogar com outra cultura.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">A psicologia ind\u00edgena n\u00e3o \u00e9 uma psicologia sobre os ind\u00edgenas, mas uma resposta ao encontro dos ind\u00edgenas com o colonizador pela qual se busca a produ\u00e7\u00e3o de um conhecimento complexo e fronteiri\u00e7o. Tal conhecimento busca oferecer estrat\u00e9gias de resist\u00eancia e de resili\u00eancia diante das viol\u00eancias f\u00edsicas, materiais e simb\u00f3licas que afligem as comunidades ind\u00edgenas ainda hoje. O equ\u00edvoco que os europeus produziram e ainda produzem sobre os n\u00e3o-europeus pode ser ressignificado desde que se compreenda que o conhecimento n\u00e3o se faz apenas por um gesto de reflex\u00e3o solit\u00e1ria em que a raz\u00e3o seria o seu agente fiador, como no caso da tradi\u00e7\u00e3o cartesiana. Muitas culturas ind\u00edgenas entendem que a compreens\u00e3o m\u00fatua s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando corporalidades distintas compartilham experi\u00eancias sensitivas comuns que criam compartilhamentos extra-verbais, isto \u00e9, n\u00e3o alcan\u00e7ados pela raz\u00e3o, pr\u00f3ximo do que intelectuais decoloniais chamam de \u201ccorpo-pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: right\">Por Marcos de Jesus (13.02.2024)<\/p>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<a class=\"synved-social-button synved-social-button-follow synved-social-size-48 synved-social-resolution-single synved-social-provider-facebook nolightbox\" data-provider=\"facebook\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\" title=\"Follow us on Facebook\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/facebook\" style=\"font-size: 0px;width:48px;height:48px;margin:0;margin-bottom:5px;margin-right:5px\"><img decoding=\"async\" alt=\"Facebook\" title=\"Follow us on 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Trata-se antes de apresentar uma breve leitura a partir daquilo que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o como forma de despertar o interesse do leitor pela obra. Um dos aspectos mais interessantes da discuss\u00e3o proposta pelo autor que \u00e9 ind\u00edgena e professor no Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo se refere a sua cr\u00edtica \u00e0s pretens\u00f5es de universalidade da psicologia moderna e de como a psicologia ind\u00edgena vai produzindo um conhecimento nas bordas dos saberes psicol\u00f3gicos hegem\u00f4nicos. Isso porque, de modo geral, a psicologia tem elidido a dimens\u00e3o cultural de suas indaga\u00e7\u00f5es te\u00f3rico-conceituais com a ilus\u00e3o de que assim conseguir\u00e1 produzir um conhecimento que transcende o contexto onde \u00e9 produzido, sendo v\u00e1lido em qualquer tempo ou lugar. Toda psicologia \u00e9 ind\u00edgena, defende Guimar\u00e3es. 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