{"id":737,"date":"2024-02-13T11:20:24","date_gmt":"2024-02-13T14:20:24","guid":{"rendered":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/?p=737"},"modified":"2026-03-31T13:13:44","modified_gmt":"2026-03-31T16:13:44","slug":"a-descolonizacao-da-psicologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/2024\/02\/13\/a-descolonizacao-da-psicologia\/","title":{"rendered":"A descoloniza\u00e7\u00e3o da psicologia"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"737\" class=\"elementor elementor-737\">\n\t\t\t\t<div class=\"has_eae_slider elementor-element elementor-element-37055d5e e-flex e-con-boxed wpr-particle-no wpr-jarallax-no wpr-parallax-no wpr-sticky-section-no wpr-equal-height-no e-con e-parent\" data-eae-slider=\"4167\" data-id=\"37055d5e\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-79234e82 elementor-drop-cap-yes elementor-drop-cap-view-default elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"79234e82\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-settings=\"{&quot;drop_cap&quot;:&quot;yes&quot;}\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-738\" src=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2024\/02\/1000027975.jpg\" alt=\"\" width=\"216\" height=\"324\" srcset=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2024\/02\/1000027975.jpg 317w, https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2024\/02\/1000027975-200x300.jpg 200w, https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2024\/02\/1000027975-205x308.jpg 205w\" sizes=\"(max-width: 216px) 100vw, 216px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">O livro \u201cDecolonial psychology: toward anticolonial theories, research, training, and practice\u201d [Psicologia decolonial: rumo a teorias, pesquisa, treinamento e pr\u00e1tica anti-coloniais], rec\u00e9m-publicado pela editora da Associa\u00e7\u00e3o Americana de Psicologia nos Estados Unidos e organizado por Lillian Comas-D\u00edaz, Hector Y. Adames e Nayeli Y. Chavez-Due\u00f1as, se soma aos esfor\u00e7os envidados por in\u00fameros intelectuais, psic\u00f3logos e ativistas sociais em busca de caminhos para a descoloniza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1xis psicol\u00f3gica nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Embora o termo descoloniza\u00e7\u00e3o possa assumir diferentes significados, no livro ele tem o sentido de liberar a psicologia de suas premissas euroc\u00eantricas, burguesas, racistas, homo\/transf\u00f3bicas e individualistas. A proposta representa um importante tensionamento da psicologia hegem\u00f4nica que, desde seu surgimento enquanto disciplina cient\u00edfica no s\u00e9culo XIX, tem servido aos interesses dos grupos dominadores, contribuindo para a exclus\u00e3o e marginaliza\u00e7\u00e3o de grupos sociais diversos.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Embora n\u00e3o sejam as \u00fanicas, Frantz Fanon, Paulo Freire e Ign\u00e1cio Mart\u00edn-Bar\u00f3 comparecem como figuras importantes para os projetos de descoloniza\u00e7\u00e3o dos saberes psi em v\u00e1rios artigos do livro. Isso porque Fanon contribuiu com uma discuss\u00e3o sobre os efeitos do regime colonial na produ\u00e7\u00e3o da subjetividade de brancos e de negros. Para o fil\u00f3sofo martinicano, a produ\u00e7\u00e3o social do sentimento de inferioridade do negro \u00e9 contempor\u00e2neo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do sentimento de superioridade do branco, tendo por consequ\u00eancia o sofrimento ps\u00edquico para o negro. Em rela\u00e7\u00e3o a Paulo Freire, a base dial\u00f3gica sobre a qual seu pensamento se assenta \u00e9 revelador de como a\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o dois universos incomunic\u00e1veis. A a\u00e7\u00e3o modifica a reflex\u00e3o e a reflex\u00e3o ajuda a pensar a a\u00e7\u00e3o de uma forma inteiramente nova, enriquecendo-a. O processo de conscientiza\u00e7\u00e3o freiriano sup\u00f5e que o sujeito que conscientiza se conscientiza a si mesmo no ato de conscientizar o outro. Tal compreens\u00e3o rompe com a ideia de que o pensamento cr\u00edtico \u00e9 apan\u00e1gio apenas de intelectuais ou pessoas letradas; sujeitos subalternos tamb\u00e9m possuem criticidade e todos podem aprender com suas perspectivas.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Por sua vez, Ign\u00e1cio Mart\u00edn-Bar\u00f3 elaborou a chamada psicologia da liberta\u00e7\u00e3o pela qual propunha n\u00e3o apenas a interven\u00e7\u00e3o junto ao sujeito que sofre, mas a transforma\u00e7\u00e3o das estruturas que o fazem o sofrer. Assim, o te\u00f3rico ensejou uma melhor compreens\u00e3o de que a sa\u00fade mental n\u00e3o \u00e9 uma realidade puramente biol\u00f3gica ou um ato individual, mas dependente do contexto social e hist\u00f3rico. N\u00e3o h\u00e1 como ser psiquicamente saud\u00e1vel em um mundo que insiste em desumanizar, alienar e humilhar pessoas. A psicologia precisa se debru\u00e7ar sobre a dimens\u00e3o s\u00f3cio-pol\u00edtica dos sofrimentos, pois, se n\u00e3o o fizer, estar\u00e1 contribuindo para sua produ\u00e7\u00e3o e para a aliena\u00e7\u00e3o dos sujeitos. A psicologia pode e deve aprender com os saberes das comunidades exclu\u00eddas e colonizadas, tais como ind\u00edgenas, afro-descendentes e popula\u00e7\u00e3o queer.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">E a prop\u00f3sito dos saberes ind\u00edgenas e afro-descendentes, vale lembrar os conceitos de ancestralidade e de vincularidad, centrais em alguns dos textos do livro. A ancestralidade traz a possibilidade de conex\u00e3o e pertencimento, favorecendo a produ\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia e resili\u00eancia enraizadas na experi\u00eancia hist\u00f3rica e concreta dos grupos oprimidos, um processo coletivo. Pr\u00f3pria \u00e0 cosmovis\u00e3o ind\u00edgena andina, a vincularidad \u00e9 essencial para pensar a constru\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os e das rela\u00e7\u00f5es entre os seres humanos e destes com o universo mais-que-humano tal como a natureza. O anti-antropocentrismo ind\u00edgena \u00e9 a chave para viv\u00eancias individuais e coletivas menos coloniais e mais respeitosas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pluralidade de seres com os quais os humanos coabitam a terra. O desenvolvimento da espiritualidade como uma dimens\u00e3o fundamental da vida \u00e9 essencial para as experi\u00eancias de sa\u00fade e de bem-estar, pois, atrav\u00e9s dela, o ser humano tem a oportunidade de refletir sobre qual \u00e9 o seu lugar no cosmos junto a uma infinidade de muitos outros seres igualmente importantes.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: justify\">Por \u00f3bvio que seja, \u00e9 bom salientar, os breves par\u00e1grafos acima n\u00e3o pretendem resumir o livro cuja envergadura exigiria muitas p\u00e1ginas de coment\u00e1rios. Pretendem antes convidar o leitor a se debru\u00e7ar sobre a obra e contribuir ele mesmo e a seu pr\u00f3prio modo para a descoloniza\u00e7\u00e3o dos saberes e das pr\u00e1ticas psi. Imaginar uma psicologia em que caibam muitas psicologias \u2013 para parafrasear o lema do movimento neozapatista \u2013 \u00e9 tarefa fundamental do nosso tempo. Isso pode contribuir, decisivamente, para a diminui\u00e7\u00e3o do sofrimento decorrente dos processos de coloniza\u00e7\u00e3o cujos efeitos ainda se fazem presentes nas subjetividades contempor\u00e2neas e, infelizmente, ainda geram adoecimento, morte e destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n<p style=\"text-align: right\">Por Marcos de Jesus (25.01.2024).<\/p>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<a class=\"synved-social-button synved-social-button-follow synved-social-size-48 synved-social-resolution-single synved-social-provider-facebook nolightbox\" data-provider=\"facebook\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\" title=\"Follow us on Facebook\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/facebook\" style=\"font-size: 0px;width:48px;height:48px;margin:0;margin-bottom:5px;margin-right:5px\"><img decoding=\"async\" alt=\"Facebook\" title=\"Follow us on Facebook\" class=\"synved-share-image synved-social-image synved-social-image-follow\" width=\"48\" height=\"48\" style=\"display: inline;width:48px;height:48px;margin: 0;padding: 0;border: none;box-shadow: none\" src=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/plugins\/social-media-feather\/synved-social\/image\/social\/regular\/96x96\/facebook.png\" \/><\/a><a class=\"synved-social-button synved-social-button-follow synved-social-size-48 synved-social-resolution-single synved-social-provider-twitter nolightbox\" data-provider=\"twitter\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\" title=\"Follow us on Twitter\" href=\"https:\/\/twitter.com\/twitter\" style=\"font-size: 0px;width:48px;height:48px;margin:0;margin-bottom:5px;margin-right:5px\"><img decoding=\"async\" alt=\"twitter\" title=\"Follow us on Twitter\" class=\"synved-share-image synved-social-image synved-social-image-follow\" width=\"48\" height=\"48\" style=\"display: inline;width:48px;height:48px;margin: 0;padding: 0;border: none;box-shadow: none\" src=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/plugins\/social-media-feather\/synved-social\/image\/social\/regular\/96x96\/twitter.png\" \/><\/a><a class=\"synved-social-button synved-social-button-follow synved-social-size-48 synved-social-resolution-single synved-social-provider-linkedin nolightbox\" data-provider=\"linkedin\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\" title=\"Find us on Linkedin\" href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/in\/yourid\" style=\"font-size: 0px;width:48px;height:48px;margin:0;margin-bottom:5px;margin-right:5px\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"linkedin\" title=\"Find us on Linkedin\" class=\"synved-share-image synved-social-image synved-social-image-follow\" width=\"48\" height=\"48\" style=\"display: inline;width:48px;height:48px;margin: 0;padding: 0;border: none;box-shadow: none\" src=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/plugins\/social-media-feather\/synved-social\/image\/social\/regular\/96x96\/linkedin.png\" \/><\/a><a class=\"synved-social-button synved-social-button-follow synved-social-size-48 synved-social-resolution-single synved-social-provider-instagram nolightbox\" data-provider=\"instagram\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\" title=\"Check out our instagram feed\" href=\"https:\/\/instagram.com\/myusername\" style=\"font-size: 0px;width:48px;height:48px;margin:0;margin-bottom:5px;margin-right:5px\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"instagram\" title=\"Check out our instagram feed\" class=\"synved-share-image synved-social-image synved-social-image-follow\" width=\"48\" height=\"48\" style=\"display: inline;width:48px;height:48px;margin: 0;padding: 0;border: none;box-shadow: none\" src=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/plugins\/social-media-feather\/synved-social\/image\/social\/regular\/96x96\/instagram.png\" \/><\/a><a class=\"synved-social-button synved-social-button-follow synved-social-size-48 synved-social-resolution-single synved-social-provider-flickr nolightbox\" data-provider=\"flickr\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\" title=\"Check out our flickr feed\" href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/myusername\/\" style=\"font-size: 0px;width:48px;height:48px;margin:0;margin-bottom:5px;margin-right:5px\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"flickr\" title=\"Check out our flickr feed\" class=\"synved-share-image synved-social-image synved-social-image-follow\" width=\"48\" height=\"48\" style=\"display: inline;width:48px;height:48px;margin: 0;padding: 0;border: none;box-shadow: none\" src=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/plugins\/social-media-feather\/synved-social\/image\/social\/regular\/96x96\/flickr.png\" \/><\/a><a class=\"synved-social-button synved-social-button-follow synved-social-size-48 synved-social-resolution-single synved-social-provider-foursquare nolightbox\" data-provider=\"foursquare\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\" title=\"Check out our foursquare feed\" href=\"https:\/\/foursquare.com\/myusername\" style=\"font-size: 0px;width:48px;height:48px;margin:0;margin-bottom:5px;margin-right:5px\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"foursquare\" title=\"Check out our foursquare feed\" class=\"synved-share-image synved-social-image synved-social-image-follow\" width=\"48\" height=\"48\" style=\"display: inline;width:48px;height:48px;margin: 0;padding: 0;border: none;box-shadow: none\" src=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/plugins\/social-media-feather\/synved-social\/image\/social\/regular\/96x96\/foursquare.png\" \/><\/a><a class=\"synved-social-button synved-social-button-follow synved-social-size-48 synved-social-resolution-single synved-social-provider-mail nolightbox\" data-provider=\"mail\" rel=\"nofollow\" title=\"Contact Us\" href=\"mailto:mail@example.com?subject=Contact%20Request\" style=\"font-size: 0px;width:48px;height:48px;margin:0;margin-bottom:5px\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"mail\" title=\"Contact Us\" class=\"synved-share-image synved-social-image synved-social-image-follow\" width=\"48\" height=\"48\" style=\"display: inline;width:48px;height:48px;margin: 0;padding: 0;border: none;box-shadow: none\" src=\"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-content\/plugins\/social-media-feather\/synved-social\/image\/social\/regular\/96x96\/mail.png\" \/><\/a>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro \u201cDecolonial psychology: toward anticolonial theories, research, training, and practice\u201d [Psicologia decolonial: rumo a teorias, pesquisa, treinamento e pr\u00e1tica anti-coloniais], rec\u00e9m-publicado pela editora da Associa\u00e7\u00e3o Americana de Psicologia nos Estados Unidos e organizado por Lillian Comas-D\u00edaz, Hector Y. Adames e Nayeli Y. Chavez-Due\u00f1as, se soma aos esfor\u00e7os envidados por in\u00fameros intelectuais, psic\u00f3logos e ativistas sociais em busca de caminhos para a descoloniza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1xis psicol\u00f3gica nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Embora o termo descoloniza\u00e7\u00e3o possa assumir diferentes significados, no livro ele tem o sentido de liberar a psicologia de suas premissas euroc\u00eantricas, burguesas, racistas, homo\/transf\u00f3bicas e individualistas. A proposta representa um importante tensionamento da psicologia hegem\u00f4nica que, desde seu surgimento enquanto disciplina cient\u00edfica no s\u00e9culo XIX, tem servido aos interesses dos grupos dominadores, contribuindo para a exclus\u00e3o e marginaliza\u00e7\u00e3o de grupos sociais diversos. Embora n\u00e3o sejam as \u00fanicas, Frantz Fanon, Paulo Freire e Ign\u00e1cio Mart\u00edn-Bar\u00f3 comparecem como figuras importantes para os projetos de descoloniza\u00e7\u00e3o dos saberes psi em v\u00e1rios artigos do livro. Isso porque Fanon contribuiu com uma discuss\u00e3o sobre os efeitos do regime colonial na produ\u00e7\u00e3o da subjetividade de brancos e de negros. Para o fil\u00f3sofo martinicano, a produ\u00e7\u00e3o social do sentimento de inferioridade do negro \u00e9 contempor\u00e2neo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do sentimento de superioridade do branco, tendo por consequ\u00eancia o sofrimento ps\u00edquico para o negro. Em rela\u00e7\u00e3o a Paulo Freire, a base dial\u00f3gica sobre a qual seu pensamento se assenta \u00e9 revelador de como a\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o dois universos incomunic\u00e1veis. A a\u00e7\u00e3o modifica a reflex\u00e3o e a reflex\u00e3o ajuda a pensar a a\u00e7\u00e3o de uma forma inteiramente nova, enriquecendo-a. O processo de conscientiza\u00e7\u00e3o freiriano sup\u00f5e que o sujeito que conscientiza se conscientiza a si mesmo no ato de conscientizar o outro. Tal compreens\u00e3o rompe com a ideia de que o pensamento cr\u00edtico \u00e9 apan\u00e1gio apenas de intelectuais ou pessoas letradas; sujeitos subalternos tamb\u00e9m possuem criticidade e todos podem aprender com suas perspectivas. Por sua vez, Ign\u00e1cio Mart\u00edn-Bar\u00f3 elaborou a chamada psicologia da liberta\u00e7\u00e3o pela qual propunha n\u00e3o apenas a interven\u00e7\u00e3o junto ao sujeito que sofre, mas a transforma\u00e7\u00e3o das estruturas que o fazem o sofrer. Assim, o te\u00f3rico ensejou uma melhor compreens\u00e3o de que a sa\u00fade mental n\u00e3o \u00e9 uma realidade puramente biol\u00f3gica ou um ato individual, mas dependente do contexto social e hist\u00f3rico. N\u00e3o h\u00e1 como ser psiquicamente saud\u00e1vel em um mundo que insiste em desumanizar, alienar e humilhar pessoas. A psicologia precisa se debru\u00e7ar sobre a dimens\u00e3o s\u00f3cio-pol\u00edtica dos sofrimentos, pois, se n\u00e3o o fizer, estar\u00e1 contribuindo para sua produ\u00e7\u00e3o e para a aliena\u00e7\u00e3o dos sujeitos. A psicologia pode e deve aprender com os saberes das comunidades exclu\u00eddas e colonizadas, tais como ind\u00edgenas, afro-descendentes e popula\u00e7\u00e3o queer. E a prop\u00f3sito dos saberes ind\u00edgenas e afro-descendentes, vale lembrar os conceitos de ancestralidade e de vincularidad, centrais em alguns dos textos do livro. A ancestralidade traz a possibilidade de conex\u00e3o e pertencimento, favorecendo a produ\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia e resili\u00eancia enraizadas na experi\u00eancia hist\u00f3rica e concreta dos grupos oprimidos, um processo coletivo. Pr\u00f3pria \u00e0 cosmovis\u00e3o ind\u00edgena andina, a vincularidad \u00e9 essencial para pensar a constru\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os e das rela\u00e7\u00f5es entre os seres humanos e destes com o universo mais-que-humano tal como a natureza. O anti-antropocentrismo ind\u00edgena \u00e9 a chave para viv\u00eancias individuais e coletivas menos coloniais e mais respeitosas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pluralidade de seres com os quais os humanos coabitam a terra. O desenvolvimento da espiritualidade como uma dimens\u00e3o fundamental da vida \u00e9 essencial para as experi\u00eancias de sa\u00fade e de bem-estar, pois, atrav\u00e9s dela, o ser humano tem a oportunidade de refletir sobre qual \u00e9 o seu lugar no cosmos junto a uma infinidade de muitos outros seres igualmente importantes. Por \u00f3bvio que seja, \u00e9 bom salientar, os breves par\u00e1grafos acima n\u00e3o pretendem resumir o livro cuja envergadura exigiria muitas p\u00e1ginas de coment\u00e1rios. Pretendem antes convidar o leitor a se debru\u00e7ar sobre a obra e contribuir ele mesmo e a seu pr\u00f3prio modo para a descoloniza\u00e7\u00e3o dos saberes e das pr\u00e1ticas psi. Imaginar uma psicologia em que caibam muitas psicologias \u2013 para parafrasear o lema do movimento neozapatista \u2013 \u00e9 tarefa fundamental do nosso tempo. Isso pode contribuir, decisivamente, para a diminui\u00e7\u00e3o do sofrimento decorrente dos processos de coloniza\u00e7\u00e3o cujos efeitos ainda se fazem presentes nas subjetividades contempor\u00e2neas e, infelizmente, ainda geram adoecimento, morte e destrui\u00e7\u00e3o. Por Marcos de Jesus (25.01.2024).<\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uag_custom_page_level_css":"","_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[41,36,43,39,30],"class_list":["post-737","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-resenha","tag-decolonialidade","tag-natureza","tag-psicanalise","tag-psicologia","tag-resenha"],"uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"htmega_size_585x295":false,"htmega_size_1170x536":false,"htmega_size_396x360":false,"tainacan-small":false,"tainacan-medium":false,"tainacan-medium-full":false,"tainacan-large-full":false,"button-2-featured":false},"uagb_author_info":{"display_name":"marcos.jesus","author_link":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/author\/interclinica\/"},"uagb_comment_info":1,"uagb_excerpt":"O livro \u201cDecolonial psychology: toward anticolonial theories, research, training, and practice\u201d [Psicologia decolonial: rumo a teorias, pesquisa, treinamento e pr\u00e1tica anti-coloniais], rec\u00e9m-publicado pela editora da Associa\u00e7\u00e3o Americana de Psicologia nos Estados Unidos e organizado por Lillian Comas-D\u00edaz, Hector Y. Adames e Nayeli Y. Chavez-Due\u00f1as, se soma aos esfor\u00e7os envidados por in\u00fameros intelectuais, psic\u00f3logos e ativistas&hellip;","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/737","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=737"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/737\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":811,"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/737\/revisions\/811"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=737"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=737"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/divulga.unila.edu.br\/interclinica\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=737"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}